Casta e os donos de tudo

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Imagem: Divulgação/Google

Jessé Souza*

Exatamente às 13h desta quarta-feira, uma picape preta reluzente parou em frente à Câmara Municipal de Boa Vista, em fila dupla, ocupando metade da pista de uma das mais movimentadas avenidas da Capital, a Capitão Ene Garcez, ante a faixa de pedestre. Estacionou para pegar um político e, para isso, o motorista não se preocupou com o tráfego intenso daquele horário, obrigando os condutores a desviarem, se quisessem seguir viagem.

O passageiro não teve pressa para entrar no carro e, como se não se importasse com o fato de o carro estar estacionado em meia pista no horário de pico, ainda ficou conversando da janela do carro com alguém do lado de fora. Um condutor que passava no memento decidiu buzinar como se estivesse indignado com aquela cena. Então, o motorista da picape saiu lentamente, como se quisesse dizer que ele não estava nem aí para quem estivesse incomodado.

E assim é o Brasil, onde quem está no poder se sente até o dono da rua, não bastasse se colocar como parte de uma casta superior – separada por um abismo colossal dos demais pobres mortais -, que abriga serem intocáveis, acima das leis e das instituições. E pensar que um político em todas as esferas é bancado com o dinheiro dos impostos que o cidadão paga, a duras penas, em um país de injustiças.

A Operação Lava Jato, o maior esquema de corrupção que o mundo já conheceu, revelou muito claramente o grande poder nas mãos de quem tem dinheiro conquistado de forma desonesta. As malas de dinheiro surrupiado dos cofres públicos acabaram por construir essa casta que não se sente parte da sociedade brasileira, a qual só é lembrada no momento de pedir votos em tempo de campanha eleitoral.

Infelizmente, o Brasil não vai sair desse abismo se a sociedade não tomar consciência de que um político é um servidor público por excelência, bem pago não para fazer parte de uma casta, mas para representar o cidadão que paga imposto e que banca toda essa estrutura que é usada indevidamente para benefício particular e de grupos.

Estacionar um carro indevidamente é apenas uma pequena faceta de quem acha que não deve satisfação alguma à sociedade, em meio à esculhambação geral da nação. E este fato serve para lembrar que quem tem compromisso com a coletividade deve respeitar as leis e as regras, principalmente neste momento em que o país sofre de uma crise moral e ética sem precedentes.

P.S.: Artigo publicado originalmente na Folha de Boa Vista

*Jornalista
jesseroraima@hotmail.com

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