Mobilidade urbana da enganação

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Jessé Souza*

A mobilidade urbana de Boa Vista é uma enganação – para não classificá-la como uma aberração. Mobilidade não significa apenas construir obras para melhorar o tráfego de veículos, ou seja, não pode ser tratada como um projeto para facilitar o trânsito das máquinas em prejuízo aos seres humanos, aos cidadãos que não têm condições de ter um transporte, ainda que uma bicicleta.

Mobilidade significa organizar o trânsito de gente e máquina, mas dando prioridade para o transporte coletivo, para que menos pessoas sintam-se motivadas a querer um carro ou moto para chegar ao seu trabalho e até mesmo para o lazer. Por isso, em qualquer cidade desenvolvida, a prioridade são ônibus e metrô subsidiados pelo poder público.

Nos países de primeiro mundo, é o contribuinte, por meio de seus impostos, que banca o transporte público de qualidade, e não como ocorre no Brasil, em especial em Boa Vista, onde o passageiro é quem banca o custo do transporte coletivo pagando a passagem, por isso é um serviço caro e deficiente, com veículos velhos, rotas mal planejadas e longo tempo de espera.

Na Capital roraimense, por ser a tarifa fora da realidade das pessoas mais pobres e o serviço de péssima qualidade, muitos não hesitam em querer comprar uma moto ou mesmo ter uma bicicleta. E quem tem condições financeiras jamais se imaginaria pegando um ônibus sucateado e que demora, para ir trabalhar, preferindo adquirir um carro.

É por isso que o sistema se tornou uma confusão, com o surgimento do táxi-lotação para suprir a deficiência dos ônibus, o que significa mais sucateamento do transporte coletivo, inclusive favorecendo a ampliação do serviço por meio de aplicativos, como o Uber. É essa mobilidade urbana que Boa Vista merece ser estruturada para evitar que mais pessoas comprem veículos, desafogando o trânsito e amenizando o caos.

Porém, em Boa Vista, colocaram na cabeça da população que mobilidade urbana é construir mais pontes para carros e motos. Esse tipo de mobilidade privilegia obras a fim de beneficiar empreiteiras e outros tipos de esquemas inconfessáveis. Ela não serve para a coletividade, porque só alimenta a necessidade de muitos em ter um veículo próprio em vez de usar o transporte público, porque ele é caro e sucateado.

Até mesmo os abrigos das paradas de ônibus foram mal planejados, obrigando as pessoas a saírem da proteção de vidro para se protegerem do sol. Nem sequer foram instaladas as centrais de ar-condicionado, já que as paradas não são usadas e acabam sendo alvo de vândalos. Portanto, a mobilidade urbana em Boa Vista é uma mentira e mais um meio de arrancar dinheiro público.

P.S.: Artigo publicado originalmente na Folha de Boa Vista

*Colaborador
jesseroraima@hotmail.com

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