Estamos no país do ‘Doutor Bumbum’

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Foto: © REUTERS / Paulo Whitaker

Jessé Souza*

Para completar esse cenário de horror que se tornou o Brasil, o país da Lava Jato e do Impeachment, só faltava mesmo o “Doutor Bumbum”, um personagem real que poderia muito bem ter saído de algum filme ou livro. Mas não. Ele e a mãe eram foragidos da Justiça quando acabaram presos pela morte de uma mulher que passou por um procedimento estético para aumentar o bumbum, desejo de muitas que querem aumentar a autoestima no país que tem os glúteos como “preferência nacional”.

Nas redes sociais do “Doutor Bumbum”, pode-se ver que ele representa bem o momento da política brasileira construído pela ultradireita, que defende as armas como solução para a violência, que brada contra a corrupção, que odeia “comunistas” e chama as pessoas para o “Vem Pra Rua”, mas que, no fim, mostrou ser tudo aquilo que dizia abominar.

Na TV, no intervalado dos telejornais que tratam do caso, os comerciais mostram o bumbum como valor absoluto de nossa sociedade. Nas redes sociais, outros oportunistas continuam oferecendo cirurgias estéticas para quem quer ter o bumbum dos sonhos, ou a barriga, os seios, o nariz ou boca que a ditadura da indústria da moda prega.

Na política, outros “doutores do horror” agem não mais na calada da noite, mas a qualquer momento, à luz do dia e dos refletores das câmeras das reportagens da TV. Eles roubam, tramam, mentem e carregam os milhões nas meias, na cueca, nas malas e em caixas de papelão. Só não mostram o bumbum ao vivo porque aí seria demais, ou melhor, aí já iriam tomar o lugar das telenovelas que há tempos não só mostram bumbuns como toda sem-vergonhice no horário nobre.

O “Doutor Bumbum” é regra no Brasil que cultua a TV, tolera a corrupção – desde que ela seja praticada por seus corruptos favoritos – e endeusa a superficialidade, idolatrando falsos deuses criados pela mídia ou pelas redes sociais. A situação é tão surreal que nosso maior ídolo no futebol se tornou um garoto mimado, que achava que estava blindado em campo como ele se acha em seus perfis nas redes sociais.

Criamos e cultivamos monstros. O “Doutor Bumbum” é mais um deles. Ele é criação nossa, brasileiríssimo. Depois que a mídia cansar do assunto e a morte daquela mulher se tornar desinteressante ao público, outros “doutores” irão aparecer na política, na medicina, no jornalismo (já esqueceram o William Waack), na polícia e em todos os setores da sociedade…

P.S.: Artigo publicado originalmente na Folha de Boa Vista

*Colaborador
jesseroraima@hotmail.com

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