Aquele antigo discurso

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Jessé Souza*

Vários políticos já agiram como o deputado federal Antônio Carlos Nicoletti (PSL), eleito no embalo da “onda Bolsonaro”, que antes mesmo de assumir o mandato adotou o discurso em defesa da liberação da exploração mineral em Roraima. Trata-se de uma estratégia como forma de mostrar serviço em início de mandato, mas todos ficaram apenas no gogó porque esse assunto é muito mais complicado do imaginam.

Não podemos dar falsas perspectivas a uma população que precisa de emprego e, historicamente, enxerga na garimpagem uma alternativa de vida, desde quando Roraima tinha apenas, no gado solto no pasto, o seu único desenvolvimento, na década de 1930. A questão mineral é muito complexa e exige uma vontade política coletiva, partindo dos legisladores federais, ouvindo a sociedade e as populações indígenas envolvidas.

Mas, neste momento conturbando, não se trata de ser contra a mineração pura e simplesmente, e sim de prioridade. O problema mais urgente enfrentado pela população de Roraima é a ação devastadora da exploração mineral clandestina que está em curso nos principais rios do Estado, em especial nas terras indígenas, onde estão os mais importantes mananciais de água potável de Roraima, além do berço de biodiversidade inestimável e dos povos indígenas que lá vivem.

Por estar distante dos olhos da população e das autoridades, a garimpagem parece um problema invisível, que não existe ou que não causa qualquer impacto. Porém, essa atividade ilegal tem provocado sérios riscos, como a poluição dos rios com mercúrio e rejeitos provocados pelo reviramento do solo por maquinários no meio da selva.

A lama lançada nesses pontos de garimpo podem ser notadas mediante a qualidade da água de rios como o Mucajaí e Uraricoera, este o principal afluente do Rio Branco, que corta o Estado de Norte a Sul. Pescadores têm notado que a lama escura avança nesses mananciais, provocando alterações substanciais, o que não só afugenta os peixes, como também mata várias espécies. O grande risco é a contaminação da água que abastece várias cidades, inclusive Boa Vista.

O alerta vem sendo dado há muito tempo, mas o Governo Federal tem se mostrado inerte frente a estas questões, ainda que a Polícia Federal e o Exército tenham agido em alguns momentos durante operações realizadas nas terras indígenas. Mas essas ações, de forma esporádica, não são suficientes para enfrentar esse grave problema.

A mineração ilegal movimenta uma cifra muito alta, com apoio de grandes empresários que bancam toda a estrutura e exploram a mão de obra de trabalhadores em regime que parece o de escravidão. E por ser um grande negócio, com exploração de pessoas humildes, torna-se um esquema difícil de ser combatido num país acostumado a fechar os olhos para esculhambações que movimentam vultosas cifras.

Antes de adotar um discurso favorável à mineração como alternativa econômica, é necessário combater os grandes esquemas que ameaçam nosso principal patrimônio, a água potável, e colocam em risco de extinção populações indígenas indefesas, largadas ao descaso no meio da floresta. Enquanto os corpos soterrados na tragédia de Brumadinho (MG) nos envergonham como nação, é necessário pensar em frear o que está errado no país da esculhambação geral. Isso é o mais sensato neste momento.

*Idealizador do site Roraima de Fato

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