Criação de Boa Vista e Roraima

O início de tudo: demarcação de fronteiras
motivou o interesse pela região, em 1775

expedição forte do presépio
Até o final do século XVIII, o Vale do Rio Branco era, para os portugueses, apenas uma região estratégica por ser uma barreira natural para conter a invasão de estrangeiros. Mas o surgimento de Roraima efetivamente começou em 1750, quando o Rio Branco passou a ser importante pela necessidade de demarcar as fronteiras coloniais de Portugal e Espanha.

Ponto isolado do restante do Brasil, a região despertava os interesses dos holandeses e espanhóis, que chegaram a montar aldeamentos às margens do Rio Uraricoera, afluente do Rio Branco. Mas somente em 1775 a notícia da invasão estrangeira chegou ao poder central, fato apontado como um perigo real para o todo o sistema de defesa para a Amazônia.

A Coroa portuguesa enviou uma expedição comandada pelo capitão Phelippe Sturm, oficial engenheiro alemão que não enfrentou dificuldade em expulsar os espanhóis. A partir daí surgiu a necessidade da construção de um Forte bem como o início das tentativas de aldeamentos indígenas como estratégia para a ocupação efetiva do Rio Branco, o Forte São Joaquim.

Forte São Joaquim e o surgimento dos arraiais

Entre os anos de 1775 e 1776 foi iniciada a construção do Forte São Joaquim, à margem direita do Rio Tacutu, no encontro com o Uraricoera, onde se forma o Rio Branco, principal manancial que banha o Estado de Roraima. O feito tinha o objetivo de marcar definitivamente a presença no Vale do Rio Branco.

O Forte foi decisivo para estimular a política de povoamento da região. Em 1777, já existiam seis povoados, chamados de arraiais, dos quais cinco desapareceram depois da revolta dos indígenas de 1781 contra os colonizadores portugueses.

Esse fato serviu para a Província do Amazonas, em 1852, oficializar a fragilidade do Forte, que inclusive apresentava defeitos em sua construção, mas reconhecendo a importância estratégica para manter a fronteira, pois era o único ponto fortificado que a Província mantinha por esses lados.

A ocupação do Vale do Rio Branco enfrentou outra grande revolta nos aldeamentos indígenas, em 1790, momento em que a ocupação portuguesa ficou desorganizada na região. Em 1798, as povoações ficaram quase desertas e, no Forte São Joaquim, ficou um destacamento de índios proveniente do Rio Negro que se revezava mensalmente. A experiência dos aldeamentos cessou no século XVIII.

O papel das fazendas reais e do gado

Com o fracasso dos aldeamentos, os portugueses continuaram com a determinação de manter a ocupação no Vale do rio Branco e um novo projeto de ocupação foi adotado. Implantou-se a política de introdução da pecuária, com criação das “fazendas reais” para intensificar a presença do Estado no Alto Rio Branco.

As condições geográficas da região, com vegetação de cerrado e relevo plano, favoreceram a pecuária, iniciada em 1789, com as primeiras cabeças de gado trazidas do Amazonas. Iniciou-se, então, a criação de gado e cavalos na região, por iniciativa do comandante Manuel da Gama Lobo D’Almada.

No século seguinte, as regiões próximas aos principais rios foram sendo ocupadas por fazendas acompanhadas da estratégia portuguesa de evangelização dos índios, bem como a integração da região do Rio Branco ao mercado e fixação de colonos.

Entre as principais propriedades rurais estavam as Fazendas Nacionais São Bento, São José e São Marcos fundada em 1830, que ocupavam toda a região do Alto Rio Branco, de propriedade do Estado português. Também havia a fazenda particular Boa Vista, a mais importante. Isso fez com que os não índios fossem atraídos pela grande quantidade de pastagens naturais existentes no Vale do rio Branco.

Surge a cidade a partir da Fazenda Boa Vista

O fato histórico foi decisivo para o surgimento da cidade foi a instalação da Fazenda Boa Vista, em 1830, por Inácio Lopes de Magalhães, localizado hoje no Centro Histórico de Boa Vista, onde se situa o Restaurante Meu Cantinho, em frente à Orla Taumanan, localizada de frente para o Rio Branco.

A fazenda de gado estimulou a ocupação e foi decisiva para o desenvolvimento do porto fluvial na região, a partir do qual surgiram os marcos iniciais da cidade, a construção da sede da Fazenda Boa Vista e da capela de Nossa Senhora do Carmo, a Igreja Matriz.

Em 20 anos de criação, a propriedade particular já tinha se transformado em um arraial exatamente onde em 1830 existia a fazenda, ganhando contorno de cidade.

Porto fluvial deu o impulso definitivo

Boa Vista permaneceu por longo período como um povoado de pouca expressividade no cenário regional. Essa realidade começou a mudar somente no final do século XIX, quando o Rio Branco ganhou importância estratégica por causa do porto fluvial que impulsionava as atividades econômicas locais.
O Porto de Cimento, como era conhecido, servia de infraestrutura para a navegação fluvial, com embarque e desembarque, e ainda local de todo tipo de transação comercial para compras, vendas e trocas. Também era lugar de moradia das primeiras famílias que aqui chegaram, como Brasil, Magalhães, Figueiredo, Fraxes e várias outras.
A cidade cresceu dependente da navegação do Rio Branco, sobretudo porque era uma época que não havia estradas nem voos regulares. E o Porto de Cimento serviu historicamente como fonte de comunicação e de acesso à povoação da cidade.

A emancipação da freguesia do Carmo

Em 1856, a freguesia de Nossa Senhora do Carmo estava despovoada, mas localidade foi emanciparia em 1858, tornando-se uma vila, que foi fundada com transferência da pequena povoação de São Joaquim, que vivia aos arredores do Forte de São Joaquim, para aos arredores da Fazenda Boa Vista.

Naquela época, existiam 142 fazendas em atividade. Foi nesse cenário rural que o povoado foi crescendo nas primeiras décadas de XIX. Mas o adensamento populacional e a expansão territorial só ocorreram a partir de 1943, impulsionados pela política de povoamento do Território Federal.

Do século XIX e início do século XX, Boa Vista resumia-se a um arraial estruturado com algumas residências, a igreja e um porto de carga e descarga de mercadorias, a partir do qual chegava de tudo, único canal de comunicação com o resto do Brasil.

A criação do Município em 09 de julho de 1890

O Município de Boa Vista foi criado em 09 de julho de 1890, a partir do desmembramento do Município de Moura, no Amazonas. No final do século XIX, ainda em 1887, era considerado com um acanhado povoado.

Esta realidade pode ser conferida com os primeiros registros de imagem aérea em 1924, quando por aqui aportou Alexander Hamilton Rice, trazendo sua equipe para realizar pesquisas a bordo de um hidroavião. Foram tiradas as primeiras fotografias aéreas de Boa Vista.

Hamilton Rice assinalou que Boa Vista tinha 164 casas que abrigavam uma população de 1.200 pessoas. Alguns das construções eram de tijolos, como a Igreja Matriz, a Intendência, o armazém e algumas casas de moradia, a maioria de reboco e pau a pique.

A população era composta de portugueses, brasileiros, mestiços índios e alguns negros vindos das Índias Ocidentais que chegaram pela Guiana Inglesa, hoje República Cooperativista da Guiana.

De Território Federal, em 1943,
a Estado de Roraima, em 1988

Em 1943, foi criado o Território Federal do Rio Branco, convertido em 1962 em Território Federal de Roraima e, posteriormente, em 1988, em Estado de Roraima.

Em 13 de setembro de 1943, o presidente Getúlio Vargas assinou decretos criando cinco territórios federais, dentre eles o Território Federal do Rio Branco, tendo Boa Vista como Capital.
Dezenove anos depois, em 13 de setembro de 1962, através do projeto 1433, o Território Federal do Rio Branco passou a se chamar Território Federal de Roraima, cujo autor do projeto foi o deputado federal Valério Caldas de Magalhães.

Em 05 de outubro de 1988, foi criado o Estado de Roraima, com a promulgação da Constituição Federal. O artigo 14 do Ato das Disposições Transitórias da Constituição Brasileira determinou que o antigo Território Federal de Roraima tornasse Estado.
Conforme os historiadores, a população de Roraima foi constituída inicialmente de indígenas vindos da região do Caribe, entre eles os índios Macuxi, a principal tribo que dá a denominação a quem aqui nasceu. A chamada população branca começou a chegar ao final do século XVIII e início do século XIX.
O Estado se situa numa área de 225.116,1 km². O clima é equatorial (Norte, Sul e Oeste) e tropical (Leste). Quanto ao relevo, junto às fronteiras da Venezuela e da Guiana ficam as serras do Parima e de Paracaima, onde se encontra o Monte Roraima, com 2.734 metros de altitude.
O Extremo Norte do Brasil se situa no Monte Caburaí, às margens do Rio Uailã, no Município de Uiramutã, Nordeste do Estado. O Caburaí tem 1.456 metros e está na coordenada 5º 16’ 20” de Latitude Norte.

A ocupação territorial de Boa Vista foi intensificada a partir de meados da década de 1940, caracterizada por correntes migratórias estimuladas pelo governo do antigo Território, pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e pelo Plano Nacional de Desenvolvimento e Plano de Integração Nacional.

Somam-se a isso o sonho de riqueza fácil através dos garimpos, que ficou conhecido como o “El Dourado”, seguido dos programas de construção de estradas e estímulo dos governantes para trazer migrantes para povoar o então Território Federal do Rio Branco.

Por falta de estrutura na zona rural, a maior parte da população acabou se fixando em Boa Vista, juntando-se à população indígena, principalmente das etnias Macuxi e Wapixana, as maiores do Estado.

Cidade cresceu planejada a partir da década de 40

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Imagem aérea mostra como Boa Vista cresceu planejada depois da década de 1940

A implantação de um plano urbanístico para Boa Vista foi decisiva para se chegar à cidade de hoje. Esse plano fazia parte de uma política de desenvolvimento para os Territórios Federais recém-criados na época, o que incluía também outras iniciativas governamentais.

Foi assim que Boa Vista cresceu, a partir da década entre 1940 e 1950, baseado em programas de desenvolvimento tanto urbano como rural, que incluíam construções públicas, reforma urbanística, incentivos ao comércio e à agropecuária.

O primeiro governador do Território Federal do Rio Branco, Capitão Ene Garcez, realizou uma concorrência de projetos para a implantação do Plano Urbanístico para Boa Vista. A licitação foi vencida pela empresa “Riobras Industrial Ltda”, em 21 de setembro de 1944.

Em 1945, o traçado original da cidade, localizada em uma área mais elevada e livre das enchentes, serviu de base para o projeto urbanístico que se espelhou no centro urbano de Goiânia ou de Brasília. O projeto tinha como base o Rio Branco, ganhando forma de um leque, com a implantação de avenidas radiais iniciadas na ampla praça circular do Centro Cívico, cortadas por ruas circulares.

Praça do Centro Cívico é a marca da cidade

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Em forma de leque, Boa Vista inspira músicas e poesias por seu planejamento (FOTO: ANTONIO DINIZ)

Com o planejamento da década de 40 mantido na área central de Boa Vista, o traçado urbano organizado de forma radial lembra um leque, imagem pela qual a Capital roraimense ficou conhecida.

As principais avenidas do Centro convergem para a Praça do Centro Cívico Joaquim Nabuco, que é o centro geográfico da cidade, onde se concentram as sedes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário estaduais, além do Palácio da Cultura, hoteis, bancos, Correios e a Catedral Cristo Redentor.

Quando foi construído, o trânsito na chamada “bola” do Centro fluía no sentido horário, já que quase não existiam carros. Atualmente, o tráfego intenso marca os horários de pico, revelando a grande frota de veículos no Estado.

No Centro Cívico também estão construções históricas, como o Monumento ao Garimpeiro e a Praça do Coreto, que foi recentemente revitalizada, ganhando um paisagismo moderno, deixando o local mais agradável e convidativo para passeios. Os canteiros foram reformados, ganharam novo formato, cores e novas espécies de plantas.

Construção de Boa Vista teve um significado

boa vista antiga planejada foto aérea
Plano fazia parte de uma política de desenvolvimento para os Territórios Federais recém-criados na época

O plano urbanístico de Boa Visa tinha um significado para o Brasil. Não se tratava apenas de uma obra de urbanismo, mas de um projeto construído no fim de uma guerra mundial. O engenheiro Darcy Aleixo Derenusson explicou o que significava as vias radiais se entrecruzando com longas e largas avenidas circunscritas.

Segundo ele, tratava-se da afirmação do sentido de território brasileiro e de autonomia nacional. “As avenidas radiais partindo de um centro gerador, buscam os confins do Norte de nosso território, irradiando a energia de seu povo, como a protegê-lo, Roraima, guardião do Norte”.

E tudo foi planejado para dar certo. A equipe encarregada de implantar o projeto realizou um levantamento topográfico planialtimétrico e cadastral de Boa Vista e dos arredores, atingindo um raio de cobertura de 20km², com a elaboração de uma planta baixa do núcleo edificado até então.

A equipe também se encarregou dos seguintes serviços: recenseamento geral da população; estudos sócio-econômicos necessários à elaboração do Plano; projeto do Plano Diretor da Cidade; elaboração do Plano de Urbanização, com o detalhamento indispensável à sua execução; criação do Código de Obras do município; projeto de abastecimento de água, inclusive detalhamento da captação, adução e rede distribuidora.

Havia também plano da rede coletora de esgotos sanitários; planejamento de galerias de águas pluviais e seu detalhamento; sistema de energia elétrica e rede distribuidora com detalhamento; projeto arquitetônico de escolas rurais e residências. Este plano envolveu um total de cerca de mil plantas, detalhando minuciosamente a quantidade dos materiais necessários a cada obra.

Impulso para o crescimento definitivo

O plano urbanístico de Boa Vista estimulou a ocupação da cidade nos anos seguintes e precisou ser ampliado em virtude da necessidade de crescimento do núcleo urbano. Novas intervenções físicas no espaço construído voltariam a se apresentar nos anos de 1960, para marcar a presença do Estado central na Amazônia.

O plano urbano da cidade foi aumentado, sendo suas ruas ampliadas e asfaltadas e as praças gramadas e arborizadas. Contabilizou-se, nesse período, um total de 900 carros nacionais, oitocentas motocicletas importadas e alguns mini-mokes, além de muitas bicicletas.

As décadas de 1960 a 1980 registraram uma explosão demográfica e territorial. Migrantes de todo o Brasil foram atraídos pela promessa do El Dourado, com a exploração fácil de ouro e diamantes, bem como o incentivo à atividade agrícola e povoamento.

As primeiras notícias sobre a abundância em ouro e diamantes foram divulgadas na década de 1930, fazendo surgir o pensamento de que era possível ficar rico em Roraima apenas garimpando. A corrida ao ouro foi reduzida na década de 1990.

Como o plano urbanístico foi projetado levando em consideração uma previsão de crescimento de 25 anos, com as migrações da zona rural e de outros estados brasileiros, principalmente do Nordeste, o planejamento inicial logo foi superado. Em um período de 50 anos, a cidade passou de uma população de 1.800 habitantes a 250.000. A cidade mostrou que não estava preparada para enfrentar a nova realidade.

Em 1980 a população de Boa Vista possuía aproximadamente 44 mil habitantes. No final de 1991, como capital do novo Estado, o número aproximado de habitantes passou para 123 mil. Esse salto de 300% mostra a explosão populacional.

Na Boa Vista atual, o traçado previsto no plano urbanístico representa cerca de 10% da extensão total da cidade. A cidade cresceu sem respeitar o plano urbanístico, principalmente na zona Oeste, onde se encontram os bairros mais afastados do Centro, onde está a área planejada. Mas isso não tirou a beleza da cidade, que é arborizada, com ruas e avenidas largas, além de meio-fios com serviço de jardinagem.

Fontes de consultas:

*Suplementos produzidos pela Folha de Boa Vista

*Visadas sobre Boa Vista do Rio Branco: razões e inspirações da capital de
Roraima (1830-2008), de Carla Gisele Macedo Santos Martins Moraes e
Gregório Ferreira Gomes Filho

*Estudos Sociais de Roraima (Geografia e História), de Luiz Aimberê Soares de Freitas

*Minha Rua Fala, publicação semanal do jornalista Francisco Cândido na Folha de Boa Vista.
*Tese de Doutorado da professora Maria Goretti Leite de Lima, defendida na Universidade de São Paulo (USP), em 2011, intitulada “As transformações da paisagem do sítio histórico urbano de Boa Vista: Um olhar a partir da fotografia”.

*Portal do Governo de Roraima e site da Prefeitura de Boa Vista.

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