
Uma ação conjunta da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama) conseguiu localizar, na noite de quarta-feira, 04, um local de processamento de minério irregular em uma fazenda no Município de Bonfim, a cerca de 2km dos limites da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, nas proximidades do km 130 da BR-401. Informações da operação só foram divulgadas pelo governo na manhã de ontem.
Não se trata somente da descoberta de uma área usada pelo garimpo ilegal, mas a confirmação definitiva do uso de cianeto no beneficiamento do ouro, que é uma substância química altamente tóxica que representa graves riscos para o ser humano e ao meio ambiente. Inclusive, o cianeto foi usado com arma química pelos nazistas durante o Holocausto na 2ª Guerra Mundial, que resultou no genocídio de aproximadamente 6 milhões de judeus.
Essa ação é um desdobramento da ocorrência atendida pela PRF no dia 13 de janeiro passado, quando um caminhão capotou na BR-401, rodovia federal que liga Boa Vista à fronteira com a Guiana, capotou perto da Comunidade Indígena Jabuti, deixando um morto e dois feridos.

O caminhão transportava equipamentos de mineração e 500 kg de carvão ativado, o que expos a nova fase do garimpo ilegal no Brasil, pois esse carvão é um dos rejeitos da lixiviação, processo que usa cianeto para extração de ouro no lugar do mercúrio. A partir daí, as investigações evoluíram até chegar à fazenda onde havia as piscinas usadas para o beneficiamento de ouro com cianeto.
Embora essa ocorrência confirme que o garimpo ilegal passou a atuar com um produto químico altamente tóxico, denúncias do uso de cianeto não são de agora. Em junho do ano passado, a Operação Fox Uno (realizada pela PF, PRF, Ibama e Exército) encontrou várias piscinas de cianeto construídas nos garimpos ilegais para a extração de ouro nas comunidades indígenas da Raposa Serra do Sol. Na ocasião, foram presas10 garimpeiros na Serra do Atola.
Desde março daquele ano o Ministério Público já vinha cobrando das autoridades brasileiras um plano de cooperação bilateral com a Guiana para ações efetivas de fiscalização e repressão ao garimpo ilegal com uso do cianeto para filtragem do ouro. Naquela época, as autoridades alertaram que os rejeitos descartados nas áreas de garimpagem ao redor das comunidades indígenas estavam contaminando a água dos lagos, o solo e a fauna, além dos riscos para a saúde humana.

A ação de quarta-feira da PRF e Ibama desnuda a nova tática do garimpo ilegal na Raposa Serra do Sol, que passou a fazer a extração do solo em áreas nas comunidades indígenas e transporta o material para beneficiamento do ouro com cianeto para propriedades fora dos limites da terra indígena como forma de tentar se livrar da fiscalização.
Agora é possível seguir a trilha do garimpo ilegal a fim de descobrir quem financia, quem atua com apoio logístico, quem lucra com tudo isso e quem alicia os indígenas. Já se sabe que o local é uma fazenda. Chegou a hora de começar a punir os cabeças do grande esquema.
*Por Jessé Souza
