Garimpo ilegal avança na Raposa Serra do Sol e se expande por várias comunidades indígenas

Comunidades indígenas estão cercadas pelo garimpo ilegal no Município de Normandia (Foto: Divulgação/CIR)

Embora a imprensa nacional esteja repercutindo notícias de um movimento na Terra Indígena Raposa Serra do Sol que está se estruturando para resistir às operações policiais de combate ao garimpo ilegal na Comunidade Napoleão, no Município de Normandia, essa investida de garimpeiros naquela região não é recente, inclusive com fartas denúncias que vêm sendo feitas desde 2021.

Matéria publicada esta semana pela Folhapress – e repercutida por vários portais – afirma que garimpeiros aliciam comunidades locais e usam as redes sociais, piquetes e até um minidocumentário em uma investida contra as operações de combate à exploração ilegal de ouro naquela terra indígena. Mas lideranças indígenas da região há anos vêm denunciando uma estrutura criminosa com uso de maquinário pesado, financiamento externo e aliciamento de jovens indígenas.

A realidade é bem mais preocupante, pois os garimpeiros já se estabeleceram em uma área bem mais abrangente, que inclui as comunidades Raposa I, Raposa II, Tarame e Napoleão, cercadas pela atividade ilegal que se sofisticou e expandiu, com a extração de ouro feito por meio de um processo chamado de lixiviação, que é a lavagem do solo e que exige a construção de laboratórios e conhecimento técnico para uso de cianeto.

O cianeto é um químico altamente letal se manuseado de forma incorreta, inclusive foi utilizado pelos nazistas tanto nas câmaras de gás do Holocausto. Como torna-se necessário um investimento alto para instalar laboratórios, lideranças indígenas já relataram o investimento por parte de empresários e políticos, que estariam organizando a exploração ilegal de ouro. O movimento de carros e motos nos garimpos se intensifica à noite, quando não há risco de fiscalização.

A Polícia Federal (PF), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e o Exército já realizaram três operações contra o garimpo ilegal, nos últimos meses, mas as ações ilegais persistem, pois os garimpeiros contam com o apoio de pequenos grupos de indígenas, que inclusive atuam na linha de frente da exploração por meio da Sociedade de Defesa dos Índios Unidos de Roraima (Sodiurr), entidade com histórico de apoio ao governo local, garimpeiros, arrozeiros, fazendeiros e outros invasores de terras indígenas.

Desde o ano passado vem sendo registrado, pelas lideranças indígenas contrárias ao garimpo ilegal, a chegada de maquinário pesado, como escavadeiras hidráulicas, motores e geradores, trazidos da Guiana, para montar uma estrutura eficiente em que os investidores aliciam mulheres e jovens mediante promessas de dinheiro rápido. Essas promessas permitem que indígenas sejam facilmente cooptados, inclusive com registro de uso de caminhonetes destinadas ao transporte escolar.

O garimpo ilegal já registra reflexos diretos na vida das comunidades, como venda de droga, alcoolismo, chegada de membros de facção e foragidos da Justiça, além da desagregação familiar, com a venda de suas casas para que sirvam de apoio aos garimpeiros, bem como a migração para a cidade de indígenas que são contra o garimpo, os quais passam a ser pressionados e ameaçados a ir embora.  Além disso, o garimpo tem destruído as diversas atividades produtivas que sustentam a economia local e preservam os saberes tradicionais.

A tendência é a situação se agravar, caso o governo continue a tratar a região com operações pontuais, sem prioridade e com ausência de um plano efetivo de proteção territorial, a exemplo do que vem ocorrendo na Terra Indígena Yanomami, e de responsabilização de políticos, empresários, garimpeiros e indígenas envolvidos no garimpo ilegal.

*Por Jessé Souza

jesseroraima@hotmail.com

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