O olhar da população sobre crime organizado e eleições diante da miopia social em Roraima

Pesquisa mostra que boa parte da população vê o crime organizado como um fenômeno disseminado (Foto: Divulgação)

Divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública no domingo, 10, o relatório “Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança” aponta que 41,2% dos brasileiros com 16 anos ou mais reconhecem a presença, em seu bairro, de grupos criminosos organizados ligados ao tráfico ou a milícias, o equivalente a 68,7 milhões de pessoas. Os dados sugerem que a atuação do crime organizado é percebida não como algo localizado, mas como um fenômeno socialmente disseminado.

Não há dados específicos sobre Roraima, mas relatórios anteriores do próprio Fórum e de outras instituições e entidades confirmam a disseminação do crime organizado no Estado, inclusive em consórcio com facções venezuelanas, que dominam a Capital e a maioria dos municípios do interior com o uso da violência extrema por meio de execuções em via pública. Esses grupos inclusive se associaram ao garimpo ilegal, dividindo poderio com outros grupos organizados infiltrados na política local e que atuam na lavagem de dinheiro.

Ao contrário da pesquisa nacional que aponta que o crime organizado é facilmente percebido pelas pessoas, em Roraima a realidade é muito diferente, com a maioria ignorando ou não percebendo. A política partidária vem meticulosamente defendendo o garimpo ilegal em terras indígenas há 40 anos como única saída para o Estado, fazendo a população acreditar que não há outra alternativa fora do grupo desses mesmos políticos ou dessa única proposta de uma nota só.

Enquanto essa visão distorcida e direcionada sobressai, vários estudos revelam a conexão entre o financiamento do garimpo ilegal e o crime organizado, que não se resume a faccionados que traficam e matam nos bairros periféricos por disputa de território. Há um grande sistema financeiro que tanto sustenta facções criminosas quanto financia o garimpo ilegal, diante de uma população que não sabe diferenciar o que é garimpo artesanal e a mineração industrial de larga escala.

A Polícia Federal, em diversas investigações, vem apontando nos últimos anos o envolvimento de fundos de investimento e lavagem de dinheiro, que inclui postos de gasolina, jogos do tigrinho e outras atividades, não só em Roraima, mas onde há atividades do garimpo ilegal, a exemplo do Pará, Amazonas e Rondônia. Não por acaso, as maiores apreensões de barras de ouro feitas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), em Roraima, o minério ilegal era proveniente de Rondônia principalmente.

Denarium com a irmã Vana Garcia e o sobrinho Fabrício Almeida, réus por garimpo ilegal (Fotos: Divulgação)

Não por coincidência, um sobrinho e a irmã do ex-governador Antonio Denarium são réus na Justiça Federal sob acusação, com fartas provas, de financiarem o garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami. Fabrício de Souza Almeida e Vanda Garcia de Almeida, junto com o grupo, teria movimentado R$64 milhões entre janeiro de 2017 e outubro de 2021, conforme o Ministério Público Federal (MPF), cuja ação inclui o cunhado do ex-governador como um dos acusados. O caso veio à tona após investigações da Polícia Federal, que encontrou conversas no celular em que o sobrinho Fabrício Almeida é tratado como “The diamond king” (“O rei do diamante”).

Quando governador, Denarium chegou inclusive a sancionar uma lei legalizando o garimpo em Roraima com uso de mercúrio. Não pode ser esquecido que o mesmo sobrinho, Fabrício Almeida, foi preso pela Polícia Civil, junto com o primo, ou seja, outro sobrinho do ex-governador,  Antonio Olivério Garcia Bispo, em maio de 2024, com 145 kg de skunk, um fuzil, um revólver e milhares de munições, mostrando fortes indícios da ação do narcogarimpo. Em 2010, Fabrício também havia sido preso sob acusação de garimpo ilegal de diamante em Rondônia.

Fabrício Almeida e  Antonio Olivério Garcia Bispo foram presos com droga, armas e munições (Fotos: Divulgação)

Existem outros casos a serem lembrados. Os filhos do casal dos ex-governadores Neudo e Suely Campos foram presos sob suspeita de envolvimento com o garimpo ilegal. Em abril de 2023, Guilherme Campos foi preso ao ser flagrado sobrevoando a Terra Indígena Yanomami, cujo espaço aéreo estava sendo monitorado pela Força Aérea Brasileira. À época, ele alegou que estava indo para a fazenda da família. Em julho de 2025, outro filho do casal foi preso, Eduardo Campos, flagrado pela PF com cinco garimpeiros após o avião em que estavam ter sido interceptado e pousar na pista clandestina de uma fazenda no Município do Cantá.

Eduardo Campos foi preso junto com cinco garimpeiros em uma aeronave interceptada (Fotos: Divulgação)

Agora, o crime organizado que banca o garimpo ilegal migrou para a Terra Indígena Raposa Serra do Sol, onde a PRF vem fazendo seguidas apreensões de mercúrio e cianeto, produtos altamente tóxicos usados na extração de ouro. Na mais recente operação, nesta segunda-feira, 11, indígenas garimpeiros revidaram à ação da PRF e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama). Em motos, duplas armadas com revólver e flecha perseguiram e atacaram as viaturas.

Em motos, duplas de indígenas armados com revólver e flecha atacam viaturas (Imagem: Reprodução)

Em outra ponta, a prisão de oito influenciadores de Roraima envolvidos no “jogo de tigrinho” expôs as cifras do rio de dinheiro que circula e brota nas contas bancárias do grupo, que movimentou cerca de R$ 260 milhões em dois anos. São cifras milionárias que misturam não apenas dinheiro de jogo de azar, mas de outras fontes que remetem a uma estrutura bem maior por todo o país, que também ajuda a bancar o crime organizado em todos os estados brasileiros.

Enquanto a opinião pública não consegue visualizar o grande esquema que é o crime organizado, a população fica com hospitais sem leitos (com gente agonizando nos corredores), artistas locais sem receber cachês, servidores públicos com direitos negados, gente morrendo no trânsito (enquanto o Detran não consegue sequer terminar a construção de sua sede), milhões sendo pagos a empreiteiras no apagar das luzes, além de outras inúmeras mazelas, como estradas com pontes de madeira desabando, escolas em condições precárias, obras paralisadas etc…

*Por Jessé Souza

jesseroraima@hotmail.com

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