Sem água potável nos lotes, famílias de Bom Jesus vivem drama diário e até bebem água da chuva

Casal Seleste e Gilberto Esteves instalou um captador de água de chuva improvisado (Foto: Simone Raposo)

Enquanto existem recursos de quase R$1 milhão, já depositados na conta da Prefeitura de Amajari, provenientes de emenda parlamentar destinada à construção de poços semiartesianos para produtores rurais da agricultura familiar, por todo o município inúmeras famílias sofrem há décadas por falta de água potável em suas propriedades rurais.

Embora essa realidade se entenda por vários projetos de assentamentos e comunidades indígenas, a Vicinal Bom Jesus é um dos exemplos extremos, onde as famílias precisam diariamente buscar água na sede da vila em garrafas pets ou, em casos mais extremos, até mesmo aparar água da chuva se quiserem água para beber ou mesmo para fazer a comida.

Essa é a realidade enfrentada pelo casal de aposentados Gilberto José Esteves, 71 anos, e Seleste Esteves, 73, os quais foram um dos primeiros a chegarem no assentamento Bom Jesus, há 30 anos, onde criam animais domésticos e fazem pequenos plantios de subsistência. Impossibilitados de buscar água na sede da Vila Bom Jesus, eles são obrigados a beber água da chuva ou mesmo utilizá-la para preparar a refeição diária.

Sempre precisando de favores de conhecidos para buscar água na vila, o casal decidiu construir uma engenhoca improvisada com uma lona plástica e uma caixa d’água para aparar a água da chuva, a qual é transferida para garras pets para uso doméstico, uma vez que a água puxada por bomba do igarapé é insalubre, inclusive com sérios riscos de contaminação porque os próprios moradores descartam restos de animais domésticos abatidos ou mesmo outros animais mortos.

Puxar água do igarapé é uma tarefa não só árdua como perigosa para Gilberto Esteves. Sofrendo de miopia severa, ele precisa caminhar diariamente por 500 metros mata adentro para ligar e desligar a bomba instalada no igarapé, correndo risco de acidentes ou de ser atacado por cobras e até mesmo onça. Ao andar por 1 Km de ida e volta, Esteves muitas vezes tropeça e cai no caminho por não enxergar bem, conforme relata a esposa, Seleste Esteves, que reclama que são três décadas de sofrimento para conseguir água potável.

Lana Patrícia diz que já carregou muita água do igarapé (Foto: Simone Raposo)

O mesmo drama é compartilhado pela moradora Lana Patrícia Simon da Silva, 53 anos, que por décadas, junto com o marido e filhos, foi obrigada a armazenar água da chuva ou buscar no igarapé. Como na região o solo não é propício para cavar poços, que desbarrancam durante o inverno, a única saída para ter água potável é buscar na vila em garrafas pets, assim como fazem todos os demais moradores nos lotes da região.

Lana disse que, em um certo período, durante uma reunião de moradores, foi feito um levantamento em que 97 moradores precisavam de poço artesiano em suas propriedades. No entanto, ela não sabe dizer no que deu essa iniciativa. Segundo ela, a cada período eleitoral surgem promessas, as quais nunca são concretizadas. Hoje ela tem uma bomba para puxar água do igarapé, mas isso não alivia o sofrimento para conseguir água para beber e preparar suas refeições.

Professor Marcelino Reinaldo e sua esposa, Isabel Ana: sofrimento para conseguir água (Foto: Simone Raposo)

O mesmo tormento vive o casal Marcelino Reinaldo Pereira Brito, 57 anos, e Isabel Ana Esteves, 35, os quais moram há 20 anos em Bom Jesus e passam por sacrifício diário ao terem que se deslocar 3,5Km de moto, até a sede da vila, para buscar água potável em garrafas pets. O casal também cria animais em sua propriedade. Professor de Matemática na escola da vila, Marcelino reclama que nunca existiu um projeto para construção de poços artesianos em Bom Jesus.

Enquanto as dezenas de famílias de pequenos produtores são castigadas por não terem acesso a água potável em casa, que é um bem essencial à vida e um direito fundamental, uma denúncia publicada em vídeo no mês passado, gravado durante uma reunião entre fiéis de uma igreja, o deputado estadual Isamar Junior afirmou que destinou emenda parlamentar no valor de R$830 mil para a construção de poços semiartesianos no Amajari.

O parlamentar foi categórico ao afirmar que a prefeita Núbia Lima estaria “segurando o recurso”, fato que estaria o fazendo passar por “mentiroso” junto ao seu eleitorado quando ele diz que destinou a emenda para construção de poços semiartesianos, no entanto nunca foi executada ou mesmo confirmada pela Prefeitura, apesar da existência do recurso em caixa para executar a emenda. Nenhuma autoridade municipal se pronunciou até o momento.

O cenário da falta de água potável é recorrente em outras regiões do Amajari, a exemplo da zona rural na Serra do Tepequém, além da histórica Vila Cabo Sobral, antiga sede da vila, onde os moradores passam por situação semelhante à enfrentada na Vicinal Bom Jesus. E o que mais chama a atenção é a inércia das autoridades, que silenciam sobre o fato, além dos órgãos de controle que fecham os olhos para a questão.

*Por Jessé Souza

jesseroraima@hotmail.com

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