
A situação da Câmara Municipal de Boa Vista é consequência do que a política partidária se tornou em Roraima, em que o caso mais emblemático é o do então governador cassado quatro vezes, Antonio Denarium, que deixou o mandato por força da legislação eleitoral, para poder concorrer ao Senado, sem ter seus processos julgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Por sua vez, em uma vergonhosa realidade, a atual legislatura do Legislativo municipal tem quatro vereadores cassados, incluindo o presidente da Casa, Genilson Costa, que chegou a ser preso pela Polícia Federa por acusação de compra de votos e saiu da cadeia direto para ser também reeleito para continuar como presidente.
Além dele, seguem cassados recorrendo no cargo os vereadores Roberto Franco e Adnan Lima (ambos por fraude à cota de gênero) e Deyvid Carneiro (por compra de votos e abuso de poder econômico/político), completando a lista do descalabro político que tem marcado o Estado onde processos de cassação também são marcados pelo comportamento de eleitor vendilhão de voto.
Enquanto esta é a realidade que se apresenta na Capital, onde há grandes desafios, a exemplo de trânsito e mobilidade urbana, drenagem e regularização fundiária, a Câmara se mostra distante dos principais embates, obviamente com suas raras exceções. E isso diante da apatia de uma sociedade que finge nada estar acontecendo.
Então é aí que surge o vereador Deyvid Carneiro, que não só está cassado como também teve sua cassação mantida em 1ª instância e ainda foi multado por tentar atrasar o processo. Ele apresentou um projeto de lei para que pais e responsáveis possam proibir os filhos de participarem de atividades pedagógicas de gênero nas escolas municipais.
O projeto em si é inócuo por não existir na grade curricular de ensino de qualquer escola pública, tanto municipal quanto estadual, uma disciplina que trate desse tema. Depois, que não há cabimente algum tentar legislar para que vontades dos pais se sobreponham a toda uma estrutura educacional, onde sequer a ideologia de gênero existe ou mesmo orientação sexual.
Fica muito claro que uma proposta desse nível não se sustenta à luz da legislação, por isso sequer deveria ter ganhado repercussão na mídia, uma vez que a finalidade é exatamente essa: desviar o foco da real situação política, com cassações de mandatos, e gerar engajamento em pautas conservadores e falso-moralistas que tomaram conta de uma país sequestrado pelo extremismo político e religioso.
Enquanto isso, as pautas que realmente impactam a vida da sociedade e das escolas ficam ocultas, como o combate ao bullying, violência doméstica e sexual contra mulheres e crianças, destacando que é dentro de casa e no círculo da família onde ocorre a maioria dos casos de estupros e outros abusos – e não na sala de aula ou dentro dos banheiros das escolas.
Apostando nessa lavagem cerebral que a sociedade brasileira vendo sendo mantida por pautas extremistas político-religiosas, foi assim que o deputado estadual Isamar Júnior não pensou duas vezes em propor um projeto de lei para proteger homens da violência contra a mulher em Roraima, invertendo a cruel realidade de feminicídios e estupros contra mulheres brasileiras. É o poste mijando no cachorro.
A política partidária no Estado se tornou nesse angu político, em que pautas conservadoras e falso-moralistas servem para continuar enganando a sociedade, enquanto os políticos seguem comprando votos, fraudando cotas de gênero e envolvidos em seguidos escândalos com mochilas recheadas de dinheiro transitando na Capital.
*Por Jessé Souza
