
Um jovem casal começou ganhando dinheiro nas plataformas de apostas virtuais, chamadas de Bets. Ele estava desempregado. Ela era funcionária de uma pousada turística. Ganharam dinheiro suficiente para comprar uma moto nova. Vivendo de aluguel, logo o veículo teve que ser vendido para que eles pudessem pagar a conta dos bancos quando começaram a perder no joguinho virtual.
O rapaz conseguiu emprego como atendente em uma mercearia, mas com tanta dívida acumulada devido ao joguinho, não resistiu à tentação de ganhar “dinheiro fácil e rápido” no garimpo ilegal. Deu errado. Mas não pôde voltar porque está devendo passagem, alimentação e estadia para quem financiou sua ida. Só poderá vir embora nesse mês de abril, quando toda sua dívida for paga. Nesse meio tempo, a mulher perdeu o emprego e teve que ir embora.
Essa é a história real de quem sucumbiu à disseminação das Bets e que representa a realidade de muitos não só em Roraima, mas no país. A situação é tão preocupante a ponto de servidores de uma instituição de ensino federal perceberam que os alunos do interior e comunidades indígenas que ficam nos alojamentos estavam viciados no joguinho, indicando riscos para jovens e adolescentes ainda em formação.
Além das Bets, outros dois fatores são responsáveis por um alto endividamento do brasileiro: a ampliação da oferta de crédito com o aumento do número de pessoas com contas em banco, desde a pandemia, e as altas taxas de juros. A combinação desses três fatores é catastrófica: 80,4% das famílias se encontravam endividadas em março, recorde na série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada desde janeiro de 2010 pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Conforme a pesquisa, 29,6% das famílias tinham dívidas em atraso em março e 12,3% não tinham condição de pagar as contas atrasadas naquele mês, com o pagamento de dívidas comprometendo quase um terço da renda familiar (29,6%). Cartões de crédito (84,9%), crediários do varejo (16%) e empréstimos pessoais (12,6%) representam hoje os principais tipos de dívidas das famílias, segundo o levantamento.
Dados de outra pesquisa, desta vez realizada pela Serasa, apontam que 81,7 milhões de brasileiros estavam inadimplentes em fevereiro, ou 49,9% da população adulta, com valor médio da dívida por pessoa de R$ 6.598,13. A cultura da compra parcelada por meio de financiamento de cartão de crédito contribui para isso, ainda que desde 2024 esteja vigorando uma norma que estabelece um teto para o aumento de uma dívida no cartão de crédito até o dobro do valor original.
Pesquisa Datafolha divulgada em 18 de abril passado aponta que 27% dos entrevistados disseram usar o crédito rotativo com diferentes graus de frequência. Também mostrou que 67% dos brasileiros dizem ter dívidas financeiras e que 21% têm parcelas em atraso. A bomba estourou e os joguinhos na internet acabam se mostrando uma ilusão para quem acha que pode ganhar dinheiro fácil e rápido para pagar essas dívidas.
Importante ressaltar que as apostas on-line foram autorizadas no Brasil em 2018, durante o governo de Michel Temer (MDB), as quais foram regulamentadas em 2023 e 2024. Enquanto isso, as autoridades brasileiras não mostram-se preocupadas com esse quadro, deixando de tomar atitudes enérgicas para combater o vício das apostas entre a população mais vulnerável.
Enquanto alguns poucos influenciadores mostram evolução patrimonial do dia para a noite divulgando os joguinhos nas redes sociais, os mais pobres seguem com o pescoço na guilhotina das dívidas impagáveis aos assalariados. Isso precisa acabar no país, mas não se vislumbra uma saída. Porque esses mesmos influenciadores são contratados por políticos, especialmente em anos eleitorais.
*Por Jessé Souza
