
A política e suas peculiaridades. Não mais que de repente, os atores que defendiam ardorosamente a permanência do então governador Antonio Denarium no cargo são os mesmos que hoje já contam como certa a inelegibilidade dele. No entanto, agora surgiu o novo discurso de que o atual governador Edilson Damião precisa continuar no posto, pois ele não teria nada a ver com os crimes eleitorais praticados por Denarium quando governador, pois Damião ainda não era o vice-governador e sequer fazia parte da chapa que foi eleita.
Só para recapitular, Denarium foi cassado quatro vezes pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) por abuso de poder político e econômico durante as eleições de 2022, com uso indevido da máquina pública para obter vantagens eleitorais para se reeleger. Foi com ele que Damião chegou a vice-governador que o habilitou a assumir a titularidade do cargo. Antes disso, até as cassações no TRE e o recurso de um deles sendo julgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o discurso de defesa de Denarium era “deixa o homem eleito por meio do voto trabalhar”.
Longe dos embates políticos e dos votos dos ministros do TSE, que se mostraram dispostos a deixar Edilson Damião no cargo e manter a inelegibilidade de Denarium, pois ele renunciou para concorrer ao Senado, o fato principal é que tivemos uma epidemia de cassações e processos de cassações nos últimos anos, em Roraima, por compra de voto. Mas esses processos não provocam indignação coletiva, uma vez que a moralização na política é relativa e seletiva, de acordo com os interesses ou ideologia dos eleitores.
Até o início de abril desse ano, as cassações confirmadas ou em andamento em Roraima envolvem principalmente vereadores eleitos em 2024, com decisões de final de 2025 se concretizando, além de uma confirmação de cassação antiga de um deputado estadual por fatos ocorridos em 2018. Isso fora os que não foram reeleitos, entre deputados e vereadores, que chegaram inclusive a ser presos pela PF por crimes eleitorais e respondem a processos.
Pelo menos quatro vereadores de Boa Vista tiveram mandatos cassados em primeira instância com decisões entre novembro de 2025 a janeiro de 2026 na Câmara de Boa Vista, incluindo o presidente da Casa, Genilson Costa, e Deyvid Carneiro, ambos cassados por compra de votos; além de Roberto Franco e Adnan Lima, por fraude à cota de gênero. E dois casos no interior: o do vereador de São Luiz do Anauá, Fagner de Mato Gomes, então presidente da Casa legislativa daquele município, e do vereador Adriano Costa da Silva, de São João da Baliza.
A Justiça Eleitoral ainda declarou a ex-vice-presidente da Câmara de Boa Vista, ex-vereadora Juliana Garcia, inelegível até 2032 por abuso de poder econômico e compra de votos nas eleições de 2024. Por sua vez, o ex-deputado estadual Renan Bekel Filho teve recurso negado pelo TSE, que manteve cassação do mandato por compra de votos nas eleições de 2018. Ele já havia sido cassado várias pelo TRE. Tem ainda o caso da deputada federal Maria Helena da Asatur, declarada inelegível por compra de votos e abuso de poder econômico junto com cassação de vereador Adriano Costa, de São João da Baliza.
Apesar de todos esses exemplos de punição eleitoral, é muito improvável que haja alguma mudança de comportamento por parte dos políticos. O exemplo está no Município de Alto Alegre, durante eleição suplementar para a Prefeitura diante da cassação do prefeito, Pedro Henrique Machado, que chegou inclusive a ser preso posteriormente. A eleição foi marcada por uma visível compra de votos, repetindo os mesmo atos das eleições de 2022, reunindo ali todos os ingredientes do que reina em Roraima quando se trata de política partidária.
Importante lembrar que o prefeito cassado em Alto Alegre, preso sob acusação de um esquema de propinagem, é filho de um casal envolvido há duas décadas na Operação Praga do Egito, que ficou conhecido como Operação Gafanhoto (funcionários fantasmas eram colocados apenas para “comer” na folha de pagamento, ou seja, recebiam sem trabalhar e davam parte do dinheiro para políticos e outras autoridades).
O pai dele, Henrique Machado, então conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE), foi condenado à prisão este ano por peculato no caso histórico da gafanhotagem. Enquanto respondia a esta acusação, ele também chegou a ser condenado à prisão, outra vez, por ter recebido de forma irregular o auxílio-transporte justamente enquanto estava afastado do cargo de conselheiro do TCE em virtude de envolvimento no “caso gafanhoto”.
Aqui está o suco da política roraimense. Alguém ainda tem a inocência ou a pachorra de acreditar que esse quadro irá mudar nas eleições desse ano?
*Por Jessé Souza
