
Enquanto os embates e negociações políticas em Roraima se tornaram uma disputa por compadrios que tentam manter esposas, filhos, cunhados e parentes no poder, os criminosos agem para garantir que o Estado se solidifique como território seguro do crime organizado. A questão é tão séria que as conexões do crime ocorrem de onde menos se espera.
Uma investigação na Bahia que desarticulou uma quadrilha que abria buracos no forro de joalherias em shoppings para furtar peças e joias de ouro, cujos investigados exibiam viagens internacionais e carros de luxo nas redes sociais, acabou chegando a uma aeronave apreendida em Roraima que era utilizada no tráfico internacional de drogas. A propósito, os dois shoppings roraimenses foram alvos de ladrões que agiram dessa mesma forma.
Não se trata de caso isolado. Somente este ano, a Polícia Federal já realizou cerca de 12 operações e desdobramentos de investigações que envolvem tráfico de drogas, garimpo ilegal, crimes ambientais, crime organizado transfronteiriço, além de corrupção e fraudes na política roraimense. Para se ter uma ideia do crescimento da atuação da PF no Estado, em 2023 foram 34 operações deflagradas, enquanto em 2024 subiu para 67 operações, ou seja, quase o dobro.
Enquanto isso, o governador Edilson Damião acaba de nomear o coronel da Polícia Militar Francisco das Chagas Lisboa Júnior como secretário adjunto da Casa Militar, o qual foi preso pela PF na Operação Martellus, em dezembro de 2024, que investigou um esquema de compra de votos junto com o presidente da Câmara de Boa Vista, Genilson Costa, que inclusive foi cassado pela Justiça Eleitoral, mas segue no cargo. À época, o coronel era subcomandante da Polícia Militar de Roraima.
A Casa Militar, um órgão importante dentro da estrutura do Palácio do Governo, já foi envolvido no grande escândalo da morte de um casal no Município do Cantá, há quase dois anos, em que um dos envolvidos era o capitão Helton John Silva de Souza, o responsável pela segurança do então governador Antonio Denarium. O acusado de ser o mandante da execução do casal em uma disputa fundiária segue foragido até hoje.
Os fatos mostram que o Estado segue em uma trilha perigosa, em que a política tornou-se uma disputa por uma capitania hereditária, com o crime organizado se estabelecendo no mesmo momento em que agentes públicos, policiais e políticos de Roraima são investigados em seguidas operações policiais. Enquanto isso, a opinião pública tem a atenção desviada para saber quem trai quem nos acertos partidários que estão prestes a ruir mais uma vez em novas reviravoltas.
*Por Jessé Souza
