Campanhas eleitorais e a realidade com maletas, carros-fortes e mochilas recheadas de dinheiro

PF vem apreendendo mochilas recheadas de dinheiro desde o ano passado, em Roraima (Foto: Divulgação/PF)

Nas primeiras eleições depois da emancipação de Roraima como Estado, a partir da Constituição de 1988, tornou-se popular a imagem do chamado “homem da maleta”, que era o emissário de políticos endinheirados que era enviado para executar a compra de votos na chamada “boca de urna” (B.U.). Grupos numerosos de pessoas, antecipadamente cadastradas com nome, CPC e título de eleitor, varavam a madrugada à espera da pessoa da maleta com o pagamento.

Depois, com o desmonte dessa tática devido a denúncias, o esquema passou a ser feito numa espécie de “feira-livre de voto”, em que famílias inteiras ficavam em frente das casas ou nas esquinas esperando cabos eleitorais (ou até mesmo o próprio candidato ou candidata) passar comprando o voto na hora e à vista, com as cédulas enroladas no elástico com o “santinho” com o número do candidato o qual deveria ser votado.

Atualmente, a chamada “B.U” foi oficializada por meio de contratos legalizados perante a Justiça Eleitoral como cabo eleitoral para fazer bandeiradas, distribuir santinhos ou mesmo caminhadas pelos locais públicos movimentados. Na véspera da eleição, essas pessoas contratadas legalmente passam a fazer parte da “B.U.” aos moldes de antigamente, como pagamento extra valendo como compra de voto pura e simples, fora do contrato.

É essa avenida larga que permite com que emissários ou até mesmo empresários façam saques vultosos para esquematizar essa grande máquina de compra de voto no dinheiro vivo, que não pode ser rastreado facilmente. Houve um tempo recente em que a bandalheira era tão desbragada que carros-fortes eram contratados para levar os malotes de dinheiro até os comitês eleitorais, um fato que chamou atenção da Polícia Federal.

Com isso, nos tempos atuais, a preparação para essa grande feira de compra e venda de votos tem sido feita por meio de saques de dinheiro antecipados e transportados por meio de mochilas em fortíssimas suspeitas de um duto de corrupção que alimenta todo esse esquema que rola em períodos eleitorais. Em tempos de Pix, grandes somas de dinheiro em mochilas e na cueca são suspeitíssimos.

Nos últimos meses, foram quatro operações da Polícia Federa, em Boa Vista, que apreenderam mochila recheadas de dinheiro: em setembro de 2025, três pessoas presas com R$510 mil em dinheiro vivo; em outubro de 2025, um homem preso com quase R$300 mil; em janeiro desse ano, um homem foi preso com R$150 mil, o que revelou conexões com o mandatário da época; em março desse ano, dois homens foram flagrados com R$1 milhão.

Na sexta-feira passada, a PF apreendeu R$4 milhões para investigação, cujo valor estava em poder de um empresário, sob suspeita de servir a uma candidatura para o Senado, cuja candidata já tem um passado que alimentou manchetes de jornal, quando teve o marido flagrado pela PF, em 2024, com R$500 mil (parte do valor escondido na cueca).

Essa é a realidade da política roraimense, em que corrupção e campanha eleitoral se cruzam sempre, muitas vezes mudando o personagem e a forma de operar o esquema, mas sempre com o eleitor se submetendo e permitindo que as eleições, em Roraima, sejam sempre negociadas por quem tem dinheiro.   

*Por Jessé Souza

jesseroraima@hotmail.com

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