Resgate da História de Boa Vista a partir de 1616

Não há como construir o futuro sem conhecer o passado, por isso fomos até um século depois do achamento do Brasil para conhecer a História de Boa Vista, que passou de uma área isolada no Vale do Rio Branco a uma cidade acolhedora nesses 135 anos de criação, um material não só de resgate histórico, mas que serve como fonte de pesquisa

Primeira imagem aérea de Boa Vista feita em 1924 feita por Hamilton Rice

Para compreender a origem do surgimento de Boa Vista, Capital do Estado de Roraima, é necessário buscar os fatos históricos sobre as incursões dos exploradores portugueses na Região Norte, as quais tinham a finalidade de proteger esse pedaço do Brasil contra as invasões estrangeiras.

Para isso, o Estado brasileiro teve que manter uma política de ocupação da área de fronteira com as nações vizinhas, a Venezuela, ao Norte, e a República Cooperativista da Guiana (antiga Guiana Inglesa), a Leste.  Foi ao longo dessa conquista que surgiu Boa Vista, à margem direita do Rio Branco, afluente do Rio Negro, que banha o Amazonas, Estado do qual Roraima foi desmembrado.

A origem de tudo foi em 1616, um século depois do achamento do Brasil, quando foi fundado o Forte do Presépio, a partir do qual os portugueses marcaram sua ocupação na Amazônia.  Esse Forte deu origem à cidade de Belém, Capital do Pará, ponto que serviu de base tanto para que os portugueses espalhassem feitorias e missões ao longo do Rio Amazonas, como também para a expulsão dos estrangeiros que entravam pela Venezuela e Guiana.

A região do Vale do Rio Branco, atual Estado de Roraima, aparece nos documentos e textos de cronistas e viajantes, com mais propriedade, a partir do século XVIII. No entanto, a historiografia corrente aponta como marco do seu “descobrimento” a expedição comandada por Pedro Teixeira (1637 a 1639).

Demarcação de fronteiras motivou interesse pela região a partir de 1775

Desenho mostra excursões de estrangeiros ao Vale do Rio Branco (Imagem: Divulgação)

Até o final do Século XVIII, o Vale do Rio Branco era uma região sem atrativos comerciais. Os portugueses mantinham apenas um interesse estratégico por ser uma barreira natural para conter a invasão de estrangeiros. O surgimento de Boa Vista efetivamente começou a partir de 1750, quando o Rio Branco passou a ser importante pela necessidade de demarcar as fronteiras coloniais de Portugal e Espanha.

Ponto isolado do restante do Brasil, a região despertava os interesses dos holandeses e espanhóis, que chegaram a montar aldeamentos às margens do Rio Uraricoera, afluente do Rio Branco. Mas somente em 1775 a notícia da invasão chegou ao poder central, fato apontado como um perigo real para o todo o sistema de defesa para a Amazônia.

A Coroa portuguesa enviou uma expedição comandada pelo capitão Phelippe Sturm, oficial engenheiro alemão que não enfrentou dificuldade em expulsar os espanhóis. A partir daí surgiu a necessidade da construção de um Forte bem como o início das tentativas de aldeamentos indígenas como estratégia para a ocupação efetiva do Rio Branco, o Forte São Joaquim.

Forte São Joaquim e a matança de indígenas na Revolta da Praia de Sangue

Réplicas e desenho do Forte São Joaquim (Imagens: Reprodução)

Entre os anos de 1775 e 1776, foi iniciada a construção do Forte São Joaquim, à margem direita do Rio Tacutu, no encontro com o Rio Uraricoera, onde se forma o Rio Branco, principal manancial que banha o Estado. O feito tinha o objetivo de marcar definitivamente a presença no Vale do Rio Branco, onde viviam inúmeras populações indígenas, as quais não foram levadas em conta na política de ocupação.

O Forte foi considerado decisivo para estimular a política de povoamento da região e, por conseguinte, o surgimento de Boa Vista. Em 1777, já existiam seis povoados, chamados de arraiais, mas a convivência não foi pacífica com os indígenas. Desses arraiais, cinco desapareceram depois da primeira revolta dos indígenas em 1781 contra os colonizadores portugueses.

Esse fato serviu para a Província do Amazonas, em 1852, oficializar a fragilidade do Forte, que inclusive apresentava defeitos em sua construção, mas reconhecendo a importância estratégica para manter a fronteira, pois era o único ponto fortificado que a Província mantinha por esses lados.

A ocupação do Vale do Rio Branco enfrentou outra grande revolta nos aldeamentos indígenas em 1790, momento em que a ocupação portuguesa ficou desorganizada na região. Chamada de Revolta da Praia de Sangue, o levante ocorreu porque os indígenas não aceitaram as decisões portuguesas de viver em povoados por eles criados e revoltaram-se. O resultado foi uma matança de indígenas que chegou a tingir as águas do rio Branco de sangue.

Em 1798, as povoações ficaram quase desertas e, no Forte São Joaquim, ficou um destacamento de indígenas provenientes do Rio Negro que se revezavam mensalmente. A experiência dos aldeamentos cessou no século XVIII, mas ficou o embrião para surgir a Capital de Roraima, ou seja, o povoado que restou dessas habitações.

Papel das fazendas reais com a introdução da pecuária

Escola tradicional de Boa Vista homenageia Lobo D’Almada

Com o fracasso dos aldeamentos no Forte São Joaquim, os portugueses continuaram com a determinação de manter a ocupação no Vale do Rio Branco e um novo projeto de ocupação foi adotado. Implantou-se a política de introdução da pecuária, com criação das “fazendas reais” para intensificar a presença do Estado no Alto Rio Branco. E o projeto deu certo para que Boa Vista surgisse.

As condições geográficas da região, com vegetação de cerrado e relevo plano, favoreceram a pecuária, iniciada em 1789, com as primeiras cabeças de gado trazidas do Amazonas trazidas por Manuel da Gama Lobo de Almada (D’Almada), governador da Capitania de São José do Rio Negro, hoje Estado do Amazonas. Lobo DAlmada introduziu o gado bovino e equino (cavalos) nas Fazendas São Bento e São Marcos às margens do Eio Uraricoera; e depois na Fazenda São José, no Rio Tacutu, no Vale do Rio Branco, atual Estado de Roraima.

No século seguinte, as regiões próximas aos principais rios foram sendo ocupadas por fazendas acompanhadas da estratégia portuguesa de evangelização dos índios, bem como a integração da região do Rio Branco ao mercado e fixação de colonos. Entre as principais propriedades rurais estavam as Fazendas Nacionais São Bento, São José e São Marcos fundada em 1830, que ocupavam toda a região do Alto Rio Branco, de propriedade do Estado português.

Também havia a fazenda particular Boa Vista, a mais importante. Isso fez com que os não indígenas fossem atraídos pela grande quantidade de pastagens naturais existentes no Vale do Rio Branco.

Cidade nasceu no entorno da Fazenda Boa Vista

A instalação da Fazenda Boa Vista ocorreu em 1830, por Inácio Lopes de Magalhães. Nos dias de hoje, fica no Centro Histórico de Boa Vista, onde se situa o Restaurante Meu Cantinho, em frente à Orla Taumanan e ao lado da Igreja Matriz, de frente para o Rio Branco.

A fazenda de gado estimulou a ocupação e foi decisiva para o desenvolvimento do porto fluvial na região, a partir do qual surgiram os marcos iniciais da cidade, a construção da sede da Fazenda Boa Vista e da capela de Nossa Senhora do Carmo, a Igreja Matriz. Em 20 anos de criação, a propriedade particular já tinha se transformado em um arraial exatamente onde em 1830 existia a fazenda, ganhando contorno de cidade.

Sede da Fazenda Boa Vista após crescimento do povoado

Em 1856, a freguesia de Nossa Senhora do Carmo era despovoada, mas a localidade foi emanciparia em 1858, tornando-se uma vila, que foi fundada com transferência para a região da pequena povoação de São Joaquim, que vivia aos arredores do Forte de São Joaquim.

Naquela época, existiam 142 fazendas em atividade. Foi nesse cenário rural que o povoado foi crescendo nas primeiras décadas do século XIX. A partir daí até o início do século XX, Boa Vista resumia-se a um arraial estruturado com algumas residências, a igreja e um porto de carga e descarga de mercadorias, a partir do qual chegava de tudo, único canal de comunicação com o resto do Brasil.

Porto fluvial deu o impulso definitivo

Porto fluvial foi a porta de entrada para o surgimento de Boa Vista e do Estado 

Boa Vista permaneceu por longo período como um povoado de pouca expressividade no cenário regional. Essa realidade começou a mudar somente no final do século XIX, quando o Rio Branco ganhou importância estratégica por causa do porto fluvial que impulsionava as atividades econômicas locais.

O Porto de Cimento, como era conhecido, servia de infraestrutura para a navegação fluvial, com embarque e desembarque, e ainda local de todo tipo de transação comercial para compras, vendas e trocas.

Também era lugar de moradia das primeiras famílias que aqui chegaram, como Brasil, Magalhães, Figueiredo, Fraxes e várias outras. Porém, no local foi construída a Orla Taumanan, que desconfigurou o Berço Histórico de Boa Vista.

A cidade cresceu dependente da navegação do Rio Branco, sobretudo porque era uma época que não havia estradas nem voos regulares. E o Porto de Cimento serviu historicamente como fonte de comunicação e de acesso à povoação da cidade.

Emancipação da Freguesia do Carmo

Igreja Matriz foi importante para estabelecer a Freguesia de Nossa Senhora do Carmo

Em 1856, mesmo com a freguesia de Nossa Senhora do Carmo despovoada, a localidade foi emanciparia em 1858, tornando-se uma vila, que foi fundada com transferência para a região da pequena povoação de São Joaquim, que vivia aos arredores do Forte de São Joaquim.

Naquela época, existiam 142 fazendas em atividade. Foi nesse cenário rural que o povoado foi crescendo nas primeiras décadas de XIX. Mas o adensamento populacional e a expansão territorial só ocorreram a partir de 1943, impulsionados pela política de povoamento do Território Federal.

Do século XIX e início do século XX, Boa Vista resumia-se a um arraial estruturado com algumas residências, a igreja e um porto de carga e descarga de mercadorias, a partir do qual chegava de tudo, único canal de comunicação com o resto do Brasil.

Criação do Município em 09 de julho com o desmembramento do Amazonas

Foto da chegada da Expedição de Hamilton Rice mostra prédio da Intendência, equivalente à primeira Prefeitura de Boa Vista (prédio maior)

O Município de Boa Vista foi criado em 09 de julho de 1890, a partir do desmembramento do Município de Moura, no Amazonas. No final do século XIX, ainda em 1887, era considerado com um acanhado povoado.

Esta realidade pode ser conferida com os primeiros registros de imagem aérea em 1924, quando por aqui aportou Alexander Hamilton Rice, trazendo sua equipe para realizar pesquisas a bordo de um hidroavião, que pousou no Rio Branco, no Porto do Cimento. Foram tiradas as primeiras fotografias aéreas de Boa Vista.

Um dos primeiros registros fotográficos aéreos de Boa Vista feito por Hamilton Rice em 1924

Hamilton Rice assinalou que Boa Vista tinha 164 casas que abrigavam uma população de 1.200 pessoas. Alguns das construções eram de tijolos, como a Igreja Matriz, a Intendência, o armazém e algumas casas de moradia, a maioria de reboco e pau a pique.

A população era composta de portugueses, brasileiros, mestiços, indígenas e alguns negros vindos das Índias Ocidentais que chegaram pela Guiana Inglesa, hoje República Cooperativista da Guiana.

Intendência foi o primeiro prédio público e que foi destruído pelo primeiro governador

Imagem feita em 1924 mostra local exato onde ficava a primeira Intendência

A Intendência foi o primeiro prédio público, construído em 1900, próximo à margem direita do Rio Branco, mas de costa para o rio. Sua estrutura original foi queimada e o prédio demolido no fim da década de 1950.

A sede da Intendência quando ainda estava em processo de conclusão

O primeiro governador, Ene Garcez dos Reis, quando veio para instalar o Território Federal do Rio Branco, trouxe com ele o primeiro prefeito, Mário Homem de Melo. Ene Garcez foi quem derrubou o prédio da Intendência, que era equivalente à primeira Prefeitura de Boa Vista.

Prédio da Intendência após sua conclusão

O prédio foi reerguido em outro local em 1996, como uma das ações do Projeto Raízes. Conforme a justificativa da Prefeitura de Boa Vista, a não permanência do local original do novo prédio se deveu às constantes inundações sofridas, no período das chuvas, quando as águas do Rio Branco inundam o local.

Primeira praça, Barreto Leite, foi local de eventos cívicos e políticos

Praça Barreto Leite e o primeiro Monumento dos Pioneiros

A Praça Barreto Leite compõe a paisagem do Berço Histórico de Boa Vista. A praça foi criada conforme a evolução da cidade, em frente ao então Porto do Cimento, onde hoje está o Monumento dos Pioneiros.

Inácio Lopes de Magalhães, o fundador de Boa Vista, chegou primeiro ao local e fez a sua casa. Depois os seus filhos construíram as suas casas no entorno. Então foi tomando forma de vila.

Em seguida, fizeram o Casarão da Família Brasil. Essa vila iniciou-se onde hoje está o Restaurante Meu Cantinho, sede da Fazenda Boa Vista, seguido até na esquina onde fica a praça. Essa parte em forma de triângulo que surgiu da ocupação serviu para o surgimento da Praça Barreto Leite, a primeira de todas.

Igreja Matriz, Patrimônio Histórico e Cultural que marca o surgimento de Boa Vista

A construção da Igreja Matriz marcou a presença da Igreja Católica há cerca de três séculos

A Igreja Matriz é um marco de fé católica na região do Rio Branco e que se tornou Patrimônio Histórico e Cultural de Boa Vista. Foi aos pés da freguesia da Igreja Matriz Nossa Senhora do Carmo que surgiu Boa Vista. Neste ano de 2025, a Igreja completa 300 anos de criação. Ela fica localizada no Berço Histórico de Boa Vista, em frente à Orla do Rio Branco, no Centro.

A primeira capela que deu origem à Igreja foi construída pelos frades carmelitas em 1725, por meio das Missões do Rio Branco, erguida em madeira e terracota. Em 1892, a capela deu lugar à igreja, construída pelos missionários franciscanos, tornando-se um dos marcos de Boa Vista.

Nos anos de 1914 e 1917, a Igreja Matriz passou por uma reforma, quando D. Gerado Van Caloen, primeiro bispo das missões na Bacia do Rio Branco, veio morar em Boa Vista. Em 1921, D. Pedro Eggerath,  o segundo bispo do Rio Branco, autorizou nova reforma que deu à Igreja Matriz o estilo germânico, com a construção do átrio, a pintura, a torre para o campanário e a sacristia.

No interior, estão conservadas a pintura marmorizada, o piso em ladrilho português e o forro. A igreja ganhou dois altares laterais, bancos, estalas, via sacra, balaustrada e um conjunto de prataria belga e alemã. As janelas foram substituídas por vitrais pintados.

Começo do crescimento e ocupação junto aos indígenas

Imagem de um indígena feita pela Expedição Rice em 1924: primeiros habitantes

Em 1943, foi criado o Território Federal do Rio Branco, convertido em 1962 em Território Federal de Roraima e, posteriormente, em 1988, em Estado de Roraima. A ocupação territorial de Boa Vista foi intensificada a partir de meados da década de 1940, caracterizada por correntes migratórias estimuladas pelo governo do antigo Território, pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e pelo Plano Nacional de Desenvolvimento e Plano de Integração Nacional.

Solenidades oficiais eram feitas em frente à Igreja Matriz: posse do primeiro governador

Somam-se a isso o sonho de riqueza fácil através dos garimpos, que ficou conhecido como o “El Dourado”, seguido dos programas de construção de estradas e estímulo dos governantes para trazer migrantes para povoar o então Território Federal do Rio Branco.

Por falta de estrutura na zona rural, a maior parte da população acabou se fixando em Boa Vista, juntando-se à população indígena, principalmente das etnias Macuxi e Wapixana, as maiores do Estado, e os Paraviana, etnia que foi dizimada após a ocupação urbana, cujo nome batizou um dos bairros na zona Leste da Capital, ironicamente considerada área nobre.

Cidade nasceu planejada na década de 1940

Imagem de 1964 mostra como era a Boa Vista que foi planejada em 1940 (Foto: Divulgação)

A implantação de um plano urbanístico para Boa Vista foi decisiva para se chegar à cidade de hoje. Esse plano fazia parte de uma política de desenvolvimento para os Territórios Federais recém-criados na época, o que incluía também outras iniciativas governamentais.

Foi assim que Boa Vista cresceu, a partir da década entre 1940 e 1950, baseado em programas de desenvolvimento tanto urbano como rural, que incluíam construções públicas, reforma urbanística, incentivos ao comércio e à agropecuária.

Praça do Coreto, no Centro Cívico, fazia parte do projeto de uma cidade bem planejada

O primeiro governador do Território Federal do Rio Branco, Capitão Ene Garcez, realizou uma concorrência de projetos para a implantação do Plano Urbanístico para Boa Vista. A licitação foi vencida pela empresa “Riobras Industrial Ltda”, em 21 de setembro de 1944.

Em 1945, o traçado original da cidade, localizada em uma área mais elevada e livre das enchentes, serviu de base para o projeto urbanístico que se espelhou no centro urbano de Goiânia ou de Brasília. O projeto tinha como base o Rio Branco, ganhando forma de um leque, com a implantação de avenidas radiais iniciadas na ampla praça circular do Centro Cívico, cortadas por ruas circulares.

Era assim o Centro de Boa Vista antes do planejamento na década de 1940

Seguindo essa política, em 1946 foi construído o primeiro conjunto habitacional de Boa Vista composto por 52 casas. Ficava onde hoje se encontra a parte antiga de Boa Vista, nas proximidades do bairro São Pedro.

Durante o regime militar, foram construídas, entre o final da década de 1960 e o início da década seguinte, duas rodovias: BR-174 (ligando Boa Vista a Manaus) e BR-210 (Perimetral Norte).

Cinco bairros deram origem à expansão da Capital roraimense

As obras para concluir a operação urbanística de Boa Vista, iniciada na década de 1940, se estenderam por toda a década de 1950. Naquela época, cidade ficou divida em cinco bairros: Centro, Porto da Olaria (hoje Calungá), Rói-Couro (São Pedro), Caxangá (às margens do igarapé Caxangá, entre São Vicente e Calungá) e Ipase (conjunto habitacional no Centro destinado aos militares do 6º Batalhão de Engenharia e Construção).

Carro de boi no final da Avenida Jaime Brasil, o mais antigo Centro Comercial

A reduzida população caminhava a pé ou era conduzida pelos poucos carros de aluguel e bicicletas. Toda carga que chegava ao porto fluvial, onde hoje está plataforma baixa da Orla Taumanan, era transportada por cavalos ou carro de boi.

Igreja São Francisco, que deu origem ao bairro atual do mesmo nome

O engenheiro Darcy Aleixo Derenusson, autor do projeto urbanístico da “nova Boa Vista”, realizou um detalhado planejamento urbanístico para Boa Vista entre 1944 e 1946.

O projeto era arrojado para a época, contemplando topografia, projeto de edificações, esgotamento sanitário, galerias para escoamento de águas pluviais, abastecimento de água potável, fornecimento de energia elétrica e toda a infraestrutura até então inexistente para atender às necessidades de um centro urbano moderno.

Praça do Centro Cívico é a marca da cidade

Coreto da Praça do Centro Cívico tornou-se um dos cartões postais

Com o planejamento da década de 1940 mantido na área central de Boa Vista, o traçado urbano organizado de forma radial lembra um leque, imagem pela qual a Capital roraimense ficou conhecida, uma identidade visual.

As principais avenidas do Centro convergem para a Praça do Centro Cívico Joaquim Nabuco, que é o centro geográfico da cidade, onde se concentram as sedes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além do Palácio da Cultura, hoteis, bancos, Correios e a Catedral Cristo Redentor.

Início do planejamento de Boa Vista no Centro Cívico

Quando foi construído, o trânsito na chamada “bola” do Centro fluía no sentido horário, já que quase não existiam carros. Atualmente, o tráfego intenso marca os horários de pico, revelando a grande frota de veículos no Estado.

No Centro Cívico também estão construções históricas, como o Monumento ao Garimpeiro e a Praça do Coreto, que foi recentemente revitalizada, ganhando um paisagismo moderno, deixando o local mais agradável e convidativo para passeios. Os canteiros foram reformados, ganharam novo formato, cores e novas espécies de plantas.

Plano urbanístico teve um significado para o Brasil nos tempos de guerra

Projeto elaborado no fim de uma guerra mundial tinha a finalidade de passar a afirmação do sentido de território brasileiro

O plano urbanístico de Boa Visa teve um significado para o Brasil. Não se tratava apenas de uma obra de urbanismo, mas de um projeto construído no fim de uma guerra mundial. O engenheiro responsável pelo projeto, Darcy Aleixo Derenusson, explicou o que significava as vias radiais se entrecruzando com longas e largas avenidas circunscritas.

Segundo ele, tratava-se da afirmação do sentido de território brasileiro e de autonomia nacional. “As avenidas radiais partindo de um centro gerador, buscam os confins do Norte de nosso território, irradiando a energia de seu povo, como a protegê-lo, Roraima, guardião do Norte”.

Como o plano urbanístico foi elaborado em tempos de guerra, é possível observar que as avenidas largas foram planejadas para que aeronaves de pequeno porte pudessem pousar emergencialmente, como os jatos. Afinal, Boa Vista está localizada geograficamente no “meio do mundo”.

E tudo foi planejado para dar certo. A equipe encarregada de implantar o projeto realizou um levantamento topográfico planialtimétrico e cadastral de Boa Vista e dos arredores, atingindo um raio de cobertura de 20km², com a elaboração de uma planta baixa do núcleo edificado até então.

A equipe também se encarregou dos seguintes serviços: recenseamento geral da população; estudos sócio-econômicos necessários à elaboração do Plano; projeto do Plano Diretor da Cidade; elaboração do Plano de Urbanização, com o detalhamento indispensável à sua execução; criação do Código de Obras do município; projeto de abastecimento de água, inclusive detalhamento da captação, adução e rede distribuidora.

Havia também plano da rede coletora de esgotos sanitários; planejamento de galerias de águas pluviais e seu detalhamento; sistema de energia elétrica e rede distribuidora com detalhamento; projeto arquitetônico de escolas rurais e residências. Este plano envolveu um total de cerca de mil plantas, detalhando minuciosamente a quantidade dos materiais necessários a cada obra.

Migrações e o impulso para o crescimento definitivo

Chegada de nordestinos para trabalhar no novo projeto urbanístico da cidade, em 1944

A construção do plano urbanístico de Boa Vista a partir de 1944 estimulou a ocupação da cidade nos anos que se seguiram, com a chegada de trabalhadores nordestinos, e precisou ser ampliado em virtude da necessidade de crescimento do núcleo urbano. Novas intervenções físicas no espaço construído voltariam a se apresentar nos anos de 1960, para marcar a presença do Brasil na Amazônia.

O plano urbano da cidade foi aumentado, sendo suas ruas ampliadas e asfaltadas, além de praças gramadas e arborizadas. As décadas de 1960 a 1980 registraram uma explosão demográfica e territorial. Migrantes de todo o Brasil foram atraídos pela promessa do El Dourado, com a exploração fácil de ouro e diamantes, bem como o incentivo à atividade agrícola e povoamento.

As primeiras notícias sobre a abundância em ouro e diamantes foram divulgadas na década de 1930, momento em que ocorreu a descoberta do garimpo de diamante na Serra do Tepequém, atualmente no Município do Amajari, Norte do Estado, fazendo surgir o pensamento de que era possível ficar rico em Roraima apenas garimpando.

A corrida ao diamante ocorreu de 1940 e a primeira corrida ao ouro, chamada de El Dourado, foi reduzida na década de 1990, quando ocorreu uma grande corrente migratória desordenada.

Como o plano urbanístico foi projetado levando em consideração uma previsão de crescimento de 25 anos, com as migrações da zona rural e de outros estados brasileiros, principalmente do Nordeste, o planejamento inicial logo foi superado.

Em um período de 50 anos, a cidade passou de uma população de 1.800 habitantes a 250.000. A cidade mostrou que não estava preparada para enfrentar a nova realidade.

Em 1980 a população de Boa Vista possuía aproximadamente 44 mil habitantes. No final de 1991, como capital do novo Estado, o número aproximado de habitantes passou para 123 mil. Esse salto de 300% mostra a explosão populacional.

Boa Vista tem a forma de um leque vista de cima (Foto: Divulgação)

Atualmente, a população da cidade de Boa Vista chegou a 413.486 pessoas, conforme Censo de 2022, o que representa um aumento de 45,43% em comparação com o Censo de 2010, mostrando que a cidade continua crescendo, especialmente devido à chegada de migrantes venezuelanos.

Na Boa Vista atual, o traçado previsto no plano urbanístico representa cerca de 10% da extensão total da cidade.  A cidade cresceu sem respeitar o plano urbanístico, principalmente na zona Oeste, onde se encontram os bairros mais afastados do Centro, onde está a área planejada. Mas isso não tirou a beleza da cidade, que é arborizada, com ruas e avenidas largas, além de meio-fios com serviço de jardinagem e cerca de 70 praças públicas bem estruturadas para esporte, lazer e eventos públicos.

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Esse amplo material foi publicado originalmente como um suplemento, de minha autoria, no jornal Folha de Boa Vista quando da comemoração dos 123 anos de Boa Vista. Os textos originais foram alterados para uma nova redação e atualização de informações.

JESSÉ SOUZA (jesseroraima@hotmail.com)

Fontes de consultas:

  •  *Visadas sobre Boa Vista do Rio Branco: razões e inspirações da capital de
  • Roraima (1830-2008), de Carla Gisele Macedo Santos Martins Moraes e Gregório Ferreira Gomes Filho
  •  *Estudos Sociais de Roraima (Geografia e História), de Luiz Aimberê Soares de Freitas;
  • *Minha Rua Fala, publicação semana do jornalista Francisco Cândido na Folha de Boa Vista;
  • A expedição de Pedro Teixeira e a “descoberta” do Rio Branco, de Maria Luiza Fernandes (UFRR) e Gregório Ferreira Gomes Filho (Mestre em História/UFSM);
  • *Tese de Doutorado da professora Maria Goretti Leite de Lima, defendida na Universidade de São Paulo (USP), em 2011, intitulada “As transformações da paisagem do sítio histórico urbano de Boa Vista: Um olhar a partir da fotografia”;
  •  *Portal do Governo de Roraima e site da Prefeitura de Boa Vista.

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