
Os impactos das ações do governo dos Estados Unidos da América (EUA) na Venezuela e as medidas restritivas contra a imigração na América Latina começam a provocar sérios reflexos no Estado de Roraima. A entrada ilegal de cubanos é um desses impactos diante da intensificação da crise em Cuba que encrudesceu a partir da ocupação militar da vizinha Venezuela pelos EUA em 2026.
Com a invasão norte-americana a Caracas, em 3 de janeiro deste ano, para prender o presidente venezuelano Nicolás Maduro, capturado durante uma operação militar, Cuba foi duramente afetada ao perder seu maior fornecedor de petróleo, agravando uma crise generalizada de desabastecimento no país. Além disso, o presidente americano Donald Trump ameaçou impor tarifas de importação a qualquer país que envie petróleo para Cuba.
No entanto, medidas restritivas mais duras na fronteira dos EUA já haviam sido tomadas por Trump em 2025, atingindo em cheio os cubanos que tinham um corredor migratório na América Central criado desde 2021, quando a Nicarágua eliminou a exigência de visto para cubanos. Isso permitia que eles voassem legalmente para Manágua e, de lá, se dirigissem para a fronteira com os EUA passando por Honduras, Guatemala e México.
Mas, em fevereiro deste ano, o governo Trump obrigou Nicarágua a impedir a entrada sem visto para os cubanos, fazendo com que a corrente migratória mirasse a vizinha Guiana, a Leste de Roraima, um dos poucos países que não exigem visto para os cubanos. O resultado não poderia ser outro: o volume de refugiados cubanos que chegam ao Brasil já superou o de venezuelanos, mais que dobrando o número.
No ano de 2025, foram 42 mil cubanos que pediram refúgio no país, enquanto 21 mil venezuelanos protocolaram o pedido na Polícia Federal. Até abril deste ano, o número de pedidos de refúgio totaliza 13 mil, muitos deles chegando por meio de redes clandestinas mantidas por “coiotes”, que cobram até 10 mil dólares (cerca de R$50 mil) para fazer o transporte dos cubanos de Havana à Guiana e, de lá, até Boa Vista.
Com a ampla divulgação pela mídia internacional das ações da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em Roraima, com a interceptação e resgate de imigrantes cubanos, somente agora a população cubana está descobrindo que não precisa se submeter aos coiotes, pois a legislação brasileira permite que o pedido de refúgio possa ser feito já na fronteira, sem qualquer custo, conforme ocorre com os venezuelanos.
Significa que a tendência é aumentar ainda mais a imigração cubana em Roraima, o que requer atenção imediata das autoridades locais e federais voltadas para essa nova diáspora que exige medidas eficazes para não impactar ainda mais a realidade roraimense já afetada pela migração venezuelana. Muitos desses imigrantes cubanos chegam debilitados, por falta de alimentação adequada, ou com doenças adquiras durante o longo do trajeto da viagem.
A primeira medida das autoridades locais é fazer gestão junto ao governo brasileiro para que o Ministério da Defesa Social, que mantém a Operação Acolhida desde 2018 somente para venezuelanos refugiados, também possa atender aos cubanos, pois a chegada de mais migrantes impacta diretamente nas áreas de saúde, assistência social, educação, direitos humanos e geração de emprego.
Essa realidade não pode ser ignorada. Inclusive, os cubanos refugiados fundaram a Associação de Comunidades Cubanas na República Federativa do Brasil. Essa entidade passou a orientar os imigrantes daquele país que querem chegar a Roraima pela fronteira com a Guiana.
*Por Jessé Souza
