
A violência marcou mais um fim de semana em Boa Vista com duas mortes a facadas e, no início da noite de domingo, uma tentativa de feminicídio, no Residencial Vila Jardim, localizado no bairro Cidade Satélite, onde uma mulher possivelmente grávida foi violentamente atacada pelo ex-marido com sete facadas, ficando entre a vida e a morte, o que provocou comoção e reação popular imediata.
Os assassinatos mostram a situação da violência urbana na Capital, atormentada pela migração em massa que acaba ampliando as mazelas sociais, com a criminalidade ganhando força ancorada pela impunidade, insegurança e ausência das ferramentas do poder público para enfrentar essa realidade, em que inevitavelmente é questionado o trabalho das polícias, da Justiça e do sistema prisional.
Se todo esse sistema não funcionar como deveria, a sociedade jamais conseguirá alcançar um sentimento forte de punição e de justiça diante da criminalidade. Nesse cenário de distopia entram os casos de feminicídios e todos os tipos de violência contra a mulher, em que os agressores desafiam a sociedade e mostram-se que não estão dispostos a mudar diante do sentimento de impunidade histórica que reina no país.
O caso que ocorreu no início da noite de ontem, no Vila Jardim, é um exemplo disso, em que o ex-marido se sentiu livre para agir, após várias agressões, inclusive chegou ao ponto de cortar o cabelo dela com faca durante um dos recentes ataques. A cena de barbárie de ontem à noite foi presenciada por vizinhos de apartamento, que rapidamente chamaram a polícia e a ambulância, que chegaram rápido para prender o agressor e fazer o atendimento imediato para salvar a vida da vítima, que foi socorrida em estado crítico.
A cena de barbárie revoltou moradores e populares, que tentaram linchar o agressor e chegaram a depredar o carro em que o homem estava, em uma cena que mostra que as pessoas não acreditam mais na polícia e na Justiça. O agressor ficou dentro do veículo esperando a ex-mulher chegar, que estava com a farda do local de trabalho, mostrando um ato premeditado e covarde, revelando como o machismo estrutural é enraizado na sociedade em que muitos homens tratam mulheres como propriedade e não aceitam um “não”.
Esse crime ocorre no mesmo momento em que o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) mostram dados da queda de 3,2% no número de feminicídios no Brasil nos primeiros sete meses de 2026, tendo Roraima na lista das 14 unidades da Federação que registraram redução, com queda de 40%. A redução é atribuída às ações de uma frente de articulação nacional com o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, acordo interinstitucional assinado pelos Três Poderes da República em fevereiro de 2026.
Importante destacar que o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, na quarta-feira passada, 19, ampliar e garantir a aplicação das medidas protetivas de urgência, previstas na Lei Maria da Penha, para casos de violência de gênero contra mulheres fora do contexto doméstico, familiar ou relação de afeto. Durante a aprovação, a ministra Carmem Lúcia destacou que não pode ser considerada justa uma sociedade que vê matar uma mulher a cada seis horas.
No mesmo momento do desenrolar desses fatos positivos divulgados pela mídia, o país foi escandalizado pelo caso de uma mulher resgatada na sexta-feira, 21, após passar cinco dias acorrentada e amordaçada em cativeiro numa cidade de Goiás, que havia sido sequestrada e mantida em cárcere privado pelo ex-marido, numa cena que mais parecia um filme sobre um período medieval.
É necessário destacar que, apesar do dado sobre a queda de feminicídio no Estado nos primeiros sete meses do ano, Roraima segue campeão desse tipo de crime no país, ao ter encerrado o ano de 2025 com 13,9 feminicídios consumados e tentados por 100 mil mulheres, índice mais que o dobro da média nacional, que foi de 6,3 por 100 mil, segundo o Relatório Anual do Monitor de Feminicídios no Brasil.
Diante desse quadro, é crível que não adianta tão somente aprovar leis mais rigorosas, colocar mais policiais na rua ou erguer mais presídios. É necessário que as autoridades entendam o que está acontecendo para direcionar e ampliar políticas públicas, combatendo as mazelas, acabando com a impunidade e dando condições para enfrentar a criminalidade. O desafio é constante e a sociedade precisa entender que todos também precisam fazer sua parte, especialmente nesse momento de campanha eleitoral.
*Por Jessé Souza
