
Com a tragédia provocada por um forte terremoto na Colômbia, nesta segunda-feira, o mundo já se esqueceu da Venezuela, que continua arrasado pela crise econômica estrutural, hiperinflação, colapso produtivo e infraestrutura precária. Quem não consegue ter amnésia sobre a situação venezuelana é o Estado de Roraima, que sente o reflexo imediato do que ocorre por lá por estar localizado ao lado daquele país.
Diariamente, centenas de venezuelanas atravessam a pé a fronteira no Município de Pacaraima, ao Norte do Estado, em busca de refúgio e de uma nova vida, vislumbrando a possibilidade de rapidamente documentarem-se para conseguir vaga nos abrigos e acesso aos benefícios sociais garantidos pelo governo brasileiro por meio de programas de transferência de renda, assistência médica e proteção social.
Embora o governo dos Estados Unidos da América (EUA) tenha prometido reestruturar a Venezuela depois da captura do presidente Nicolás Maduro, no dia 3 de janeiro deste ano, a diáspora do povo venezuelano só aumentou após o terremoto que atingiu aquele país no dia 10 de junho, contrariando as estimativas de que os governos dos EUA e da Venezuela conseguiriam conter uma crise pior do que já havia.
A conclusão imediata evidenciada com a intervenção dos EUA, que mantém um governo venezuelano fantoche, é que a única finalidade do governo norte-americano realmente eram as riquezas daquele país, pois já em março havia conseguido a autorização do comércio de ouro venezuelano e a empresa petrolífera venezuelana PDVSA firmou novos contratos de exportação de petróleo para o mercado americano.
O fato foi confirmado em entrevista concedida pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que em 22 maio confirmou que o governo norte-americano extraiu uma quantidade massiva de petróleo da Venezuela, cujo volume de combustível retirado do país sul-americano foi suficiente para cobrir os gastos militares de Washington dezenas de vezes.
Enquanto isso, vídeos gravados pelos próprios venezuelanos mostram a diáspora venezuelana rumo a Roraima, que é a porta de entrada para os refugiados que são atraídos por programas mantidos pelo governo brasileiro, em parceria com as Nações Unidas, que prestam assistência humanitária a pessoas refugiadas e migrantes da Venezuela.
Roraima entrou no radar da migração depois que os EUA endureceram a política migratória. Antes disso, os EUA e a Espanha eram os principais países que recebiam os venezuelanos. Depois vinham Colômbia e Peru como os principais países sul-americanos a acolher os venezuelanos. Com o terremoto na Colômbia, novamente o Brasil pode se tornar a rota escolhida por venezuelanos em fuga da crise em seu país.
Há mais motivos para Roraima ser a rota preferencial, pois as restrições legais para refugiados e migrantes são mínimas e as permissões de trabalho relativamente fáceis de obter, com programas de proteção social e acesso ao mercado de trabalho formal, além do programa de interiorização para outros estados com emprego garantido. Além disso, crianças e adolescentes venezuelanos têm maior probabilidade de estarem matriculados na rede pública municipal e estadual de ensino.
Enquanto os EUA levam o ouro e o petróleo venezuelanos, impedindo a migração para lá, é o Estado de Roraima que fica com a obrigação de acolher e reestruturar a vida de quem perdeu tudo na Venezuela. A conta é alta e as autoridades precisam estar atentas ao movimento na fronteira. A crise humanitária pode mudar de endereço, se estabelecendo em Pacaraima e Boa Vista, principalmente, como já vimos em um passado não distante, com praças e prédios públicos, margens de rios e casas abandonadas ocupadas por migrantes.
*Por Jessé Souza
