
Os dois anos do brutal assassinato do casal de agricultores Jânio Bonfim de Souza e Flávia Guilarducci, na região do Surrão, no Município do Cantá, passaram em branco. Foi em 23 de abril de 2024 que o crime ocorreu e, desde lá, o suspeito de ter cometido o duplo homicídio, o empresário Caio Porto, continua foragido e com o nome na lista de procurados da Interpol, que é a Organização Internacional de Polícia Criminal.
Influente nos corredores palacianos, o empresário estava acompanhado de outras pessoas, um deles não menos influente: o chefe de Segurança do governador da época, o capitão da Polícia Militar Helton Jhon Silva de Souza, que chegou a ser preso, mas solto dias depois. Além de nada ter feito ao presenciar o crime, foi para casa, tomou banho e saiu para jogar futevôlei na quadra de areia do complexo Ayrton Senna, junto com amigos.
Embora ninguém mais comente sobre esse crime brutal, houve uma atualização, mas não necessariamente sobre o “Caso Surrão”, e sim sobre um dos envolvidos: no dia 13 de julho, o capitão PM Helton Jhon foi condenado pela Justiça Militar, junto com outros policiais militares – Cleônio Santos da Silva e Alessandro Dantas da Silva – por invadir uma fazenda em abril de 2023, quando expulsaram o caseiro e outras três pessoas.
O grupo de PMs agia sob interesse de um dos envolvidos na disputa pela terra. Eles entraram na propriedade sem autorização judicial, armados e identificando-se como policiais militares. Cada um foi condenado a 1 ano e nove meses de prisão em regime aberto, mas logo conseguiram o benefício de recorrerem em liberdade. Eles também tiveram que pagar R$ 5 mil a cada vítima.
Mas não para por aí. Outro envolvido nesse episódio, o tenente PM Cleônio Santos da Silva, junto com mais três policiais militares de serviço, envolveu-se em outro caso semelhante. Em março de 2024, ele foi até a fazenda do ex-marido da sua atual esposa, quando estava de serviço e mobilizou viaturas e outros policiais para intimidá-lo. Os policiais coagiram e levaram o homem até à delegacia sem mandado judicial.
Esse caso não ficou impune em sua totalidade. O tenente Cleonio foi condenado pela Justiça Militar a 1 ano e seis meses de prisão pelos crimes de prevaricação e constrangimento ilegal, mas a pena foi substituída por medidas restritivas de direitos por “bom comportamento”. Quem pagou a conta mesmo foi o contribuinte roraimense, pois no dia 4 de junho de 2025, a Justiça de Roraima condenou o Governo do Estado a pagar uma indenização de R$ 30 mil ao empresário que foi intimidado e teve a fazenda invadida pelo tenente da PM, que agiu em favor dos interesses da sua esposa.
A situação só piora. O tenente Cleônio também é apontado como suspeito de envolvimento na execução de Luiz Eduardo Peixoto, que teve o corpo mutilado e carbonizado, em fevereiro de 2018. O policial e a ex-esposa foram alvos de uma operação da Polícia Civil e chegaram a ter os sigilos telefônicos e de redes sociais quebrados em julho de 2024. A motivação do crime foi a venda de um carro.
Não pode ser esquecido outra conexão: a filha do capitão PM Helton John, uma jovem de 19 anos, foi indiciada pelo acidente que ocorreu perto de meia-noite do dia 4 de fevereiro deste ano, quando a técnica de enfermagem Patrícia Melo da Silva, de 53 anos, foi morta ao ser atropelada quando transitava de moto pela avenida Ville Roy, em Boa Vista. A moto da enfermeira foi atingida por trás pela caminhonete dirigida pela filha do PM.
O caso é emblemático devido aos graves e seguidos casos de acidentes de trânsito na Capital. Apesar da alta velocidade e de visíveis sinais de embriaguez relatadas por testemunhas, um cabo da PM que atendeu a ocorrência liberou a condutora filha do capitão da PM, o que resultou na falta do teste de bafômetro no local, impedindo a comprovação técnica de embriaguez. O Ministério Público de Roraima (MPRR) pediu a abertura de inquérito policial militar e de procedimento administrativo para investigar a conduta do cabo da PM.
No final de tudo, é necessário frisar que o crime do casal no Cantá segue com o principal acusado do crime foragido, enquanto as evidências apontam para outros casos de PMs com envolvimento em vários crimes, como formação de milícia em apoio ao garimpo ilegal, proteção a grilagem de terras, homicídios e outros. Enquanto isso, as facções apresentam seus corpos desovados e carbonizados na periferia da cidade.
*Por Jessé Souza
