
O nível das águas dos principais rios e igarapés tem baixado sensivelmente em Roraima, nas últimas semanas, especialmente o principal manancial de água potável de Boa Vista, o Rio Branco, que chegou a registrar 45 centímetros ao longo da semana passada. No entanto, recuperou volume e subiu para 52 cm na noite dessa terça-feira, 20, conforme dados da Agência Nacional de Águas (ANA), disponibilizados pelo Setor Operacional de Monitoramento da Companhia de Águas e Esgotos de Roraima (Caer)
As chuvas localizadas e esparsas que vêm caindo nos últimos dias, especialmente na região Norte, têm ajudado não só a manter o nível das águas do Rio Branco, mas também contribuído para controlar o avanço dos focos de queimadas em Roraima. Mesmo assim, as Estatísticas dos Focos Ativos por Estado, do Programa de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostram que Roraima concentra 26 eventos de fogo ativos em 11 municípios, com área estimada em 5.615 hectares. Os dados mostram que os focos de queimadas mais que dobraram em outubro desse ano em relação ao mesmo período de 2025.
Conforme os números, até 19 de outubro desse ano foram 248 focos ativos de queimadas detectados por satélite, enquanto no mesmo período do ano passado foram 128 focos registrados. De janeiro até 19 de outubro, já foram detectados 2.223 focos ativos, um número que supera o total registrado durante todo o ano de 2025, quando ocorreram 1.539 focos, totalizando 684 registros a mais este ano – mesmo ainda faltando terminar outubro e sem os dados de novembro e dezembro.
Os números são importantes nesse momento, quando as chuvas localizadas que têm caído acabam amenizando a onda de calor em várias regiões e ajudam a controlar os focos de queimadas. Isso permite que as autoridades tenham mais tempo para se preparar para os demais meses, quando as agências climáticas estimam o avanço de um Super El Niño nos últimos meses de 2026, que deverá avançar até os primeiros meses de 2027, o que pode gerar uma seca histórica e o avanço do fogo por todo o Estado.
O pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Reinaldo Imbrozio, vem usando suas redes sociais para alertar sobre os eventos El Niño que podem causar secas extremas no Norte da Amazônia, sempre associadas ao forte calor e redução drástica nos níveis dos rios, além da poluição atmosférica causada por queimadas e incêndios na vegetação provocados por ação humana.
Imbrozio lembrou de episódios históricos de fortes El Niño registrados por naturalistas que passaram pelo Norte da Amazônia, como Everard im Thurn (1877-78) e George Henry Hamilton Tate (1925-26), que anotaram, respectivamente, a fome de populações tradicionais e o fogo em extensas áreas na região que hoje chamamos de Roraima. “O evento de 1925-26 foi tão forte e marcante que foi denominado pelos moradores locais como ‘Verão da Fumaça’ e, em algumas localidades indígenas, como ‘Verão da Fome’ devido à perda total das roças”, assinalou o pesquisar.
Segundo ele, o Super El Niño de 2026 foi definido em setembro quando o aquecimento das águas do Pacífico registrou anomalia acima de 2°C, cujas consequências em Roraima estão em curso, com dados dos órgãos oficiais apontando para a redução drástica do nível do Rio Branco, aumento do número de focos de calor e aumento dos incêndios associado à forte poluição atmosférica, de acordo com o que ele publicou nessa terça-feira, 20.
Embora ele acredite que um novo “Verão da Fome” estaria longe de acontecer novamente, Imbrozio chama atenção para os dados oficiais que indicam a ocorrência do “Verão da Fumaça”, com focos de calor e incêndios provocados por ações humanas que apontam para novos e possíveis episódios de gigantescas nuvens de poluição atmosférica cobrindo Roraima, como ocorreu em 1997-98, 2015-16 e 2023-24.
Os dados estão aí e o alerta vem sendo emitido por especialistas desde o ano passado. As observações do pesquisador Rinaldo Imbrozio apontam para uma situação preocupante e que requer a atenção de todas as autoridades, incluindo principalmente as dos municípios do interior de Roraima, que costumam jogar toda a responsabilidade para o Estado, seja por falta de orçamento, de recursos humanos e por falta de interesse, cuja omissão é histórica.
*Por Jessé Souza
jesseroraima@hotmail.com
