
A reeleição de Lula da Silva para administrar o Brasil por mais quatro anos tem um impacto direto na geopolítica que estava sendo redesenhada sob o comando do presidente dos Estados Unidos (EUA), Donaldo Trump, para criar uma coalizão militar chamada “Escudo das Américas”, sob a alegação de combater os cartéis de drogas na região, mas que visa principalmente conter o avanço dos concorrentes China e Rússia.
A movimentação dos EUA, que fez da vizinha Venezuela uma base militar, mexia as peças para um cercamento do Brasil. Ao mesmo tempo, o governo norte-americano decidiu ampliar a cooperação com a Guiana, país que mantém uma disputa territorial histórica com a Venezuela. Na semana passada, dia 21, os EUA assinaram um novo acordo de cooperação militar com a Guiana, que inclui treinamento e interceptação aérea. Os militares não visualizam nenhum risco nesse acordo.
O resultado das urnas no domingo, dia 25, no Brasil, representa a derrota desse projeto norte-americano de dominar a região por meio da imposição do Escudo das Américas, que tem a finalidade geopolítica estratégica e que ficará mais difícil vingar com o Brasil não alinhado. O fato é que uma das mais influentes organizações norte-americanas, a Carter Center, e a Organização dos Estados Americanos (OEA) já chancelaram a eleição brasileira.
Enquanto Estado brasileiro estratégico na tríplice fronteira no extremo Norte do país, resta a Roraima estar atento ao desenrolar na vizinhança, seja no desenvolvimento da Guiana impulsionado pelo petróleo, seja na realidade da Venezuela sob controle absoluto dos EUA. A propósito, é necessário fazer a leitura sobre a realidade venezuelana nove meses após a captura de Maduro a fim de entender que passos devem ser seguidos.
No contexto militar, os estrategistas militares analisam que a fronteira do Brasil com a Venezuela está sob vigilância militar com patrulhas reforçadas e com operações do Exército, além do monitoramento da entrada de venezuelanos em busca de refúgio, pois é a partir da leitura certa dessa diáspora venezuelana é que as autoridades podem decidir sobre a manutenção da ajuda humanitária e a acolhida dos migrantes que chegam ao país pela fronteira com Pacaraima.
Os dados indicam que, embora não tenha ocorrido uma explosão da corrida de venezuelanos buscando refúgio no Brasil a partir da prisão de Nicólas Maduro, em janeiro desse ano, a pressão migratória segue. Dados divulgados no dia 29 de setembro pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) indicam entre 400 e 500 pessoas chegando diariamente ao Brasil pelos municípios de Pacaraima, na fronteira com a Venezuela, e Bonfim, na fronteira com a Guiana, em busca de proteção internacional.
O Exército Brasileiro já havia intensificado o monitoramento em Pacaraima, com blindados como parte da estrutura militar organizada ainda antes da prisão de Maduro, quando o então mandatário venezuelano ameaçava invadir a Guiana, além da realização de operações de segurança, o que é necessário diante do novo ambiente político regional com o governo dos EUA mantendo a Venezuela como base militar.
Com o deslocamento de militares, equipamentos e veículos de combate para ampliar a capacidade de resposta das tropas brasileiras na fronteira com a Venezuela, houve reforço da vigilância nas proximidades do marco fronteiriço em Pacaraima, inclusive nos caminhos clandestinos (antes chamados de “trasmuambeiras”). Diante da dificuldade de atravessar a fronteira fora dos pontos oficiais de fiscalização, uma nova realidade eclodiu.
A dificuldade de furar os bloqueios militares por terra, na fronteira, o narcotráfico passou a utilizar voos clandestinos para chegar a Roraima, sem plano de voo e sem matrícula. No período de 10 meses, a Força Aérea Brasileira (FAB) registrou quatro interceptações de aeronaves em que os quatro pilotos conseguiram fugir. O caso mais recente ocorreu no dia 22 de outubro. Os outros três foram registrados nos dias 27 de janeiro, 19 de maio e 31 de julho. No primeiro caso, a aeronave era procedente da Bolívia, carregando mais de 501 kg de cocaína e armamentos. Nos demais, as aeronaves entraram irregularmente a partir da Venezuela.
Os dados estão à mesa. O resultado do segundo turno da eleição presidencial brasileira não só ganhou destaque na imprensa internacional, como também foi analisada por especialistas como gerador de grande impacto no equilíbrio político da região. Roraima ocupa posição estratégica por estar na divisa com dois países onde estão em ebulição as principais mudanças desse momento crucial em que as grandes potências disputam hegemonia.
É necessário fazer a leitura correta para que o Estado de Roraima possa ser encaminhado rumo ao desenvolvimento, inclusive de olho no petróleo e nas terras raras, os quais são alvos da nova geopolítica, e intensificar política de segurança para neutralizar o crime organizado que tenta se apoderar de forças locais por meio do narcotráfico, que já se infiltrou em parte da política partidária, em alguns segmentos da economia local e que mira setores dos poderes constituídos.
- Fonte de consulta: Revista Sociedade Militar
*Por Jessé Souza
jesseroraima@hotmail.com
