
Enquanto todas as atenções estavam voltadas para os embates em decorrência da eleição presidencial nesse fim de semana, três preocupantes fatos desafiavam as autoridades e mostravam a que nível a sociedade roraimense está chegando, não só pelo que foi visto na movimentada periferia da Capital, mas em pleno fluxo do centro comercial da área nobre da cidade. Aos fatos!
Em frente a um conhecido restaurante na movimentada Avenida Ville Roy, área nobríssima de Boa Vista, um grupo de jovens abastados mostrava audácia, imprudência, irresponsabilidade e desprezo pelas autoridades de trânsito ao capotar um veículo UTV (Utility Task Vehicles) de alta performance, conforme mostram as imagens de um vídeo gravado no momento do acidente.
Esse tipo de veículo UTV não pode circular livremente na cidade ou em vias públicas urbanas e rodovias no Brasil, a não ser em reboques, pois são projetados exclusivamente para uso fora de estrada (off-road), como trilhas, fazendas, dunas e competições, uma vez que geralmente não saem de fábrica com os itens obrigatórios exigidos pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB) para circulação em vias comuns.
Os veículos que aparecem no vídeo são modelos de UTVs de alta performance, amplamente reconhecidos pelo visual agressivo, com antenas de LED, suspensão exposta de longo curso e grande potência, com motor de 240 cv e câmbio de dupla embreagem (DCT). Esses veículos variam de preço, entre R$170 mil a R$400 mil, dependendo do ano e acessórios. Por isso, não se trata de pessoas comuns. O vídeo mostra vários rapazes sem camisa, provavelmente tenham ingerido bebida alcóolica, desvirando o veículo que capotou, sob os olhares incrédulos de quem passava.
Talvez fosse uma ocorrência envolvendo um assalariado de moto, bicicleta elétrica ou um carro popular, rapidamente teriam chegado a polícia e agentes de trânsito para uma autuação rápida e certeira para aplicar multas e apreensão do veículo. No entanto, como se tratava de filhos da elite, endinheirados e com veículos que custam o valor de 247 salários mínimos, cada um, o fato ficou apenas na indignação de populares que presenciaram a cena. Se duvidar, se aparecesse algum agente público por ali, iria levar uma “carteirada” do tipo “sabe com quem você está falando?”.
O que chamou a atenção é que esses jovens e seus “parças” não se intimidaram quando viram o vídeo circulando nas redes sociais. E foram nas postagens ironizar e atacar quem criticava, classificando como “inveja”, que só “reclama quem não tem dinheiro pra gastar”, “como é bom ver o rico viver”, “na próxima te levamos” e uma direta para a mulher que gravou o vídeo: “Se der um pneu para essa senhora, ela morde”. Fora os comentários de cunho sexista, como se o problema fosse falta de sexo.
Outro fato não menos preocupante foi a cena de um homem amarrado por uma corda na traseira de um carro, sendo puxado em plena avenida no bairro Araceli, na zona Oeste. Quem gravava o vídeo daquela degradante cena comentava que se tratava de um ladrão que fora pego, espancado e arrastado até a delegacia. É como se estivéssemos em uma cidade sem lei ou em pleno século das trevas quando as pessoas faziam suas próprias leis.
Enquanto os comentários do vídeo publicado nas redes sociais apoiavam o ato, a cena desnuda a degradação de nossa sociedade, em que as pessoas não acreditam mais no poder da polícia nem no papel da Justiça. Como no caso dos filhos da elite na Avenida Ville Roy, ali também não apareceu a polícia para intervir. É como se Roraima estivesse em um tempo de total permissividade, em que o crime organizado avança e o “cidadão de bem” também se acha no direito de afrontar as autoridades.
A terceira preocupante cena ocorreu na BR-401, na Cidade Santa Cecília, na entrada do Município do Cantá, onde um motociclista foi gravado tentando interceptar um carro de passeio no meio da rodovia, durante uma briga de trânsito, como se ele tivesse o poder para agir por sua própria conta. Não se sabe como ficou depois, mas tudo indica que não ocorreu o pior, caso o condutor do carro tivesse decidido atropelar o motociclista, o que poderia entrar para as estatísticas das tragédias.
E tudo isso no momento de seguidos acidentes de trânsito com vítimas fatais – inclusive foi registrada mais uma morte, no sábado, durante uma colisão entre dois carros em Boa Vista. E a maioria dos acidentes por visível imprudência, em que os condutores não se mostram preocupados em respeitar as mais básicas regras de trânsito nem respeito com a própria vida e a vida do próximo, obrigando a cidade a ser sitiada por quebra-molas suspenso, radares para aplicar multa e redutores de velocidade.
A propósito, a cena dos jovens da elite desvirando um UTV em plena Avenida Ville Roy, como se estivesse numa praia particular, representa muito bem esse cenário visto nas ruas e avenidas da Capital, em que as pessoas com algum privilégio, poder ou status se acham acima da lei, desafiando e esnobando de todos (Idem em relação ao motociclista).
E o motorista arrastando um homem amarrado na traseira do seu carro é o outro lado da moeda dessa mesma sociedade, em que muitos acham que tudo podem em uma espécie de “liberou geral” abonado por uma política extremista que tenta se apoderar do país. Afinal, os espelhos estão aí, com pessoas tentando normalizar a violência política em via pública durante a campanha eleitoral e a invasão a prédio de universidade pública trocando o debate pela truculência.
*Por Jessé Souza
jesseroraima@hotmail.com
