Passado histórico do Sítio Arqueológico da Pedra Pintada foi narrado pelo explorador britânico Robert H. Schomburgk, quando passou por aqui em 1840, conforme pesquisa do professor André Augusto da Fonseca

Quando o explorador britânico Robert Hermann Schomburgk passou por essas terras, em 1840, em suas anotações ele registrou ter visitado a Pedra Pintada, a misteriosa rocha de forma ovalada que faz parte de um sítio arqueológico a Nordeste de Roraima. Quem constata esse fato é o professor doutor em História Social André Augusto da Fonseca, que encontrou em suas pesquisas informações sobre a passagem de Schomburgk pela famosa rocha conhecida por suas inscrições rupestres milenares.
Conforme o pesquisador postou em suas redes sociais em 2022, o explorador e sua equipe chegaram no dia 25 de novembro de 1840 “a uma comunidade Wapichana no Rio Parimé (à época chamado de Marua, pois Parimé ou Paruima era o próprio Rio Branco) e assinalou que o grande bloco granítico com ‘hieróglifos’ era chamado pelos Wapichana de Tamururu ou Tepumereme (Pedra Pintada) na língua Aruaque (na época chamada de Maipure)”.
O que surpreendeu o professor em seu importante achado histórico foi a informação de que o mais alto dos blocos do hoje Sítio Arqueológico da Pedra Pintada era considerado como a Casa de Makunaima pelos Wapichana. Vale destacar que, na cosmologia dos povos Macuxi, no Brasil, e Pemon, na Venezuela, o Monte Roraima é considerado essa morada de Makunaima.
André Augusto divulgou o mapa que mostra toda a viagem de Robert Schomburgk, desde Georgetown (Guiana) até as cabeceiras do Essequibo e o território dos Tarumã; e depois para o Pirara, Maú, Tacutu, Forte São Joaquim; depois para o Monte Roraima; e, em seguida, para os rios Uraricoera e Orenoco – Cassiquiare – Negro – Branco – Forte São Joaquim e retorno a Georgetown.
Veja abaixo a anotação feita por Schomburgk e, em seguida, em destaque, a tradução somente de parte do texto que narra sobre a Pedra Pintada:

25 de novembro. Como era domingo, ficamos a cerca de 12 milhas a sudeste do povoado de Marua. Existem, nas margens do rio de mesmo nome, algumas rochas de granito muito notáveis que os índios chamam de Tamurumu.*
*Esta é, sem dúvida, uma corruptela de Tepu Mereme, ‘rocha pintada’, na língua Maypure. M. de Humboldt descobriu uma rocha semelhante a algumas léguas de Encaramada, que também se erguia do meio das savanas.
A mais alta das quais nos foi designada como a casa de Macunaima, não pode ter menos de 3 a 400 pés e deve ser coberta com figuras hieroglíficas, como as rochas nas cataratas de Warapouta e Temehri e em outros lugares no rio Corentyn. Um acidente nos impediu de visitá-las; à tarde, um membro de nossa tripulação foi trazido, mordido por uma cascavel […]
Veja o mapa feito pelo explorador britânico com o detalhe destacado:


- Referência: RIVIÈRE, Peter (Ed.). The Guiana Travels of Robert Schomburgk, 1835-1844: Explorations on Behalf of the Royal Geographical Society, 1835-1839. Ashgate Publishing, Ltd., 2006. p. 326
A título de informação, o explorador britânico Robert Hermann Schomburgk teve um papel decisivo para a História de Roraima e para a definição da fronteira Norte brasileira no século XIX, pois suas explorações nessa região acabaram gerando um conflito diplomático que seria denominado Questão do Pirara (veja aqui), no qual o Brasil perdeu dois terços do território para a Guiana.
Abrigo de povos de um passado remoto

Localizado na Terra Indígena São Marcos, o Sítio Arqueológico Pedra Pintada teria sido abrigo de povos de um passado muito remoto, desaparecidos há milênios, onde deixaram seus registros milenares até hoje indecifráveis e que podem ser vistos em um paredão de granito onde estão as pinturas, algumas alcançando até cerca de 10 metros de altura.
O lugar representa um momento único para se observar os registros de nossos ancestrais e sentir uma atmosfera de estar em contato com a História longínqua da humanidade. O Sítio Arqueológico da Pedra Pintada, composto por um conjunto de formações rochosas, fica dentro dos limites da Terra Indígena de São Marcos, a 140 quilômetros da Capital, no sul do Município de Pacaraima, na divisa com o Município de Amajari, Norte do Estado.
A principal pedra do sítio é um monólito onde existe uma caverna na qual foram encontrados pedaços de cerâmicas, machadinhas, contas de colar, entre outros artefatos, sobre os quais não se tem informações públicas a respeito de onde estão guardados atualmente.

Pelo lado de fora, em um paredão que se assemelha a um imenso mural, é possível ver as pinturas em cor branca rosada, fato que deu o nome de Pedra Pintada. Os registros rupestres podem ajudar a dar uma luz sobre a compreensão do passado, mas as pesquisas arqueológicas não avançaram. Na entrada da caverna está fixada uma placa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) indicando que se trata de área do patrimônio histórico a ser preservado.
A pedra é um monumento megalítico imenso que se assemelha a um ovo pétreo gigantesco, com cerca de 60 metros de comprimento, 30 de altura e 40 de largura. O monólito arredondado se destaca entre o lavrado roraimense em um único bloco de granito com 2 bilhões de anos, quando o Escudo das Guianas era uma grande ilha onde se elevavam cordilheiras.
A grande rocha passou a maior parte de sua existência enterrado. Nos últimos 20 milhões de anos, a erosão do terreno fez o monólito aflorar, quando passou a ser moldado pela força dos elementos que foram desgastando sua superfície como se fosse uma cebola gigante de granito.
Foi esse processo erosivo que acabou arredondando a Pedra Pintada. Além de seu valor geológico, a Pedra Pintada é um importante sítio arqueológico pela abundância de inscrições rupestres. Há relatos de que, há 4 mil anos, o lavrado circundante seria o Lago Parimé, razão para que as inscrições estarem a 10m do solo, pois os povos originários autores das pinturas as teriam feito usando canoas.
Via @petermoonbr – 09/01/2026
- Referência: Reis NJ, Schobbenhaus C, Costa F. 2008. Pedra Pintada, RR – Ícone do Lago Parime. In: Winge M et al. (ed) Sítios Geológicos e Paleontológicos do Brasil. Brasília, CPRM, vol. 2. pp:141-150.
Inscrições rupestres

Há indício de que a Pedra Pintada tenha servido de abrigo para povos de um passado muito remoto. O paredão de granito altaneiro é como se fosse um mural feito há milênios por “artistas” do passado, com várias pinturas. São figuras variadas, constituídas de linhas e pontos justapostos, com a tradicional presença do círculo, símbolo do sol, circundando um menor, símbolo da lua, e centralizado por um ponto.
Outros símbolos assemelham-se a linhas em zigue-zague, pontos sequenciais, retângulos estilizados e representações difíceis de serem identificadas. No alto da pedra ovalada, há uma imagem em forma ondulatória, semelhante a uma grande serpente que sugere, na verdade, serem duas serpentes, uma sobrepondo-se à outra.
Essa representação ondulada segue um padrão lógico e expressivo, como se quisesse reproduzir uma ideia bem definida ou um conjunto de ideias, pois logo abaixo há uma profusão de representações diversificadas alinhadas verticalmente até sua base.
Podem ser identificados também pequenos sóis brilhantes e figuras com motivos desconhecidos ao lado de sequências de riscos justapostos que conduzem-nos a pensar se tratarem de letras esporádicas ou mesmo de uma forma de escrita.



Representados especialmente pelo pesquisador francês Marcel Homet, em em seu livro Os Filhos do Sol (1959), tais caracteres mostram uma vasta e rica simbologia que favorece uma meditação sobre sua origem e que tipo de cultura os teria reproduzido.
Desta forma, estas representações rupestres pré-históricas só fazem aumentar o mistério deste monumento lítico mais importante de Roraima, pois até hoje são capazes de confundir a mente dos pesquisadores mais experiente, fazendo-os refletir sobre tão intrigante mistério.
As pinturas são feitas em pigmentos avermelhados, muitas em perfeito estado de conservação, enquanto outras, mais esparsas, já podem ser vistas castigadas pela ação do tempo. Percorrendo ao redor da pedra, podem ser observados outros blocos de pedra menores, onde existem desenhos variados, todos gravados em pigmento vermelho vivo.
O conjunto dessas pinturas e pedras é chamado de Sítio Arqueológico da Pedra Pintada (Lat. 03º52’44”N-
Long. 60º53’52”W).
- Referência: A Misteriosa Pedra Pintada (Roraima): Fonseca, J. A.
Semelhanças com o proto-alfabeto

direita) e símbolos e ornamentos identificados por Marcel Homet junto às inscrições (à esquerda)
Ao analisar o que ele classificou como extravagantes inscrições rupestres, Marcel Homet assinalou que estas inscrições possuem grande identidade com as das mais antigas culturas do Mediterrâneo Oriental, o que é de se estranhar, pois as terras brasileiras e americanas só foram “conhecidas” após seu “descobrimento” há 500 anos.
Os estudiosos da arqueologia não podem explicar como poderiam ter sido encontrados, em plena Amazônia do extremo norte, no meio de um lavrado, letras e símbolos registrados por povos desconhecidos, que foram posteriormente utilizados por antigas civilizações europeias e asiáticas, até mesmo, muito antes da existência destas.
No imenso painel de cerca de 600 metros quadrados com inscrições rupestres, constituídas por letras e caracteres simbólicos, 75 deles assemelham-se a caracteres alfabéticos utilizados por outros povos do Velho Mundo, conforme Homet. Para o pesquisador, estas “letras” fazem parte de um alfabeto primitivo, que chamou de Língua Mater, do qual teriam se originado os demais.
Depois da passagem do pesquisador, os estudiosos não conseguiram identificar os signos apontados por Homet em 1959, pois muitos deles já se encontram muito desgastados pelo tempo e não se sabe mais onde foram encontrados vários deles relatados no livro. Mas boa parte das gravuras podem ser vistas por toda face principal da rocha a cerca de 10m do solo.
El Dorado e o Grande Lago Manoá

Enquanto estudiosos estimam que a Pedra Pintada tem formação do período Paleoproterozoico com cerca de 2 bilhões de anos, fazendo parte do Escudo da Guiana, há os que adotaram a teoria de que a região teria sido um grande lago chamado de Lago de Manoá e que cobria parcialmente a Pedra Pintada, justificando assim a altura em que são encontradas as pinturas gravadas em seus paredões retilíneos.
Esta teoria povoa a imaginação de exploradores do passado distante que alimentavam a antiga lenda da “cidade de ouro”, desaparecida em meio à floresta amazônica e exaustivamente procurada pelos descobridores espanhóis e aventureiros audaciosos, que nada mais seria do que o misterioso El Dorado.

A atração pelo “El Dorado” ocorreu no final do século XVI, com incursões de expedicionários dos Andes para leste, do Orinoco (Venezuela) para sul e do Essequibo (Guiana) para oeste, até a Província de Guayana onde hoje se localiza Roraima. Essas incursões seguiriam também, em hipótese, o traçado de caminhos pré-colombianos.
O “El Dorado” era descrito como uma área situada no extremo norte da região amazônica, na proximidade de um lago cercado por montanhas, onde existiriam tesouros – ouro e pedras preciosas – levados pelo povo Inca ao se refugiarem da invasão espanhola. Essas montanhas foram gradativamente sendo reconhecidas como aquelas da serra Pacaraima, hoje, divisora de trecho de fronteira entre Brasil e Venezuela e Brasil e Guiana.
De acordo com o mito criado, a cidade dourada, agora chamada Manoa, estaria localizada nessa região montanhosa às margens de um imenso lago denominado Parime, em cujas margens habitavam indígenas. Os seus “tuxauas” (líderes indígenas) ordenavam a guarda de tesouros junto aos seus túmulos, bem como no interior do lago. Deste modo, a região tornou-se objeto de rotas de expedições à caça desse tesouro nos séculos XVI e XVII.
- Referência: Reis NJ, Schobbenhaus C, Costa F. 2008. Pedra Pintada, RR – Ícone do Lago Parime. In: Winge M et al. (ed) Sítios Geológicos e Paleontológicos do Brasil. Brasília, CPRM, vol. 2. pp:141-150.
Ovo gerador do mundo

Ainda em em seu livro Os Filhos do Sol, Marcel Homet escreveu que a Pedra Pintada e seus registros excepcionais assemelham-se a um elipsóide colossal, comparando-a a um ovo. Assim ele escreveu: “Imediatamente recordamos o ovo ‘cosmogênico’, a antiga tradição do ‘Ovo gerador do mundo’”.
O chamado “ovo primitivo” das velhas terras do Mediterrâneo aparecia sempre acompanhado de uma serpente, exatamente como pode ser visto na parece de granito da Pedra Pintada. A antiga serpente da tradição está pintada no meio da parte central a uma altura de 10 metros.
Lugar de mistério

O pesquisador Marcel Homet ainda narra mistérios presenciados por ele e seus auxiliares ao pernoitarem numa das cavernas da Pedra Pintada por vários dias. Conforme o relato em seu livro, em uma das noites eles foram “tomados” por estranhas sensações acompanhadas de visões extravagantes. Relatou o aparecimento de seres desconhecidos, de elevada estatura, que pareciam fazer parte de um passado muito longínquo.
O autor escreveu ter ouvido também estranhos sons que pareciam vir do espaço. Homet não soube explicar se o inusitado fenômeno teria sido ocasionado pelos gases sulfurosos que partiam do fundo da caverna, o que pode ter alterado sua percepção, ou se forças desconhecidas ali se teriam manifestado.
Às margens do Rio Parimé

O sítio arqueológico fica na margem esquerda do Rio Parimé, onde no passado um pouco distante existia uma ponte de madeira para fazer a travessia. Hoje existem apenas resquícios da estrutura da ponte. Mas, no período de forte estiagem, de dezembro a março, pode-se atravessar a pé sobre as rochas que “brotam” do rio, como se fossem esculturas de pedras.
Ainda na margem direita do Rio Parimé, subindo numa pequena rocha frontal, dá para observar o visual do conjunto das três pedras maiores que formam o sítio arqueológico. A pedra mais importante é a última da trilha, onde estão os registros históricos da pré-história, cujo acesso é por uma trilha formada no meio do lavrado.

O acesso ao sítio arqueológico é pelo trecho norte da BR-174, em direção à Venezuela, a 140 Km de Boa Vista, a partir de onde é necessário entrar pela RR-400, o acesso principal, na altura do Km 119. São 11Km de vicinal na piçarra até a entrada na margem direito do rio.
No entanto, quem decidir visitar o local é necessário pedir autorização para não enfrentar contratempos. Informações podem ser obtidas na Associação dos Povos Indígenas da Terra Indígena São Marcos (APITSM) e, para realizar pesquisas, é preciso pedir autorização da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
