
São várias as camadas para explicar a reviravolta no resultado do segundo turno da eleição presidencial, encerrado no domingo. Ao começar a descascar essa cebola política e social, uma das camadas ficou bem latente: a do conflito geracional gerado na reta final da campanha, de um lado explicitado pelas cenas de idosos chegando carregados ou se arrastando às urnas; e, de outro, jovens estudantes que foram às ruas.
O que gerou esse conflito estava no cerne da campanha eleitoral, onde encastelou-se um grupo de jovens políticos de extrema-direita, que nasceram imersos na nova realidade da internet e, portanto, adaptados às novas linguagens, vivendo de likes e engajamento, sabedores dos atalhos que os algoritmos proporcionam, com falas precisas e diretas, ampliadas por cortes que satisfazem as mentes mais incautas e propícias a aceitarem sem contestar.
De não tão longe observava a velha guarda, que viveu todas essas transformações políticas, culturais, econômicas e tecnológicas, saltando de uma máquina de datilografia para um celular que hoje funciona como computador, banco digital, câmera de vídeo e foto, sala de reunião e de encontros, instrumento e escritório de trabalho. Além de um palanque eleitoral eletrônico integral comandado por bigtechs, as grandes empresas de tecnologia e inovação que dominam o mercado e influenciam a sociedade globalmente, disfarçadas de liberdade e democracia.
A guerra geracional eclodiu quando esse grupo de jovens da extrema-direita achou-se detentor de todos os poderes da internet, agindo com etarismo, deboche e preconceito contra aqueles que julgavam ultrapassados, sem respeitar toda uma geração que construiu tudo o que temos hoje, principalmente por meio de lutas trabalhistas, incluindo o serviço público, direitos à saúde e à educação gratuitas e de boa qualidade, direitos das mulheres, bem como a aposentadoria e uma jornada de trabalho menos injusta.
Esqueceram que, além das fronteiras que separam o “novo” e o “velho” estão laços fortes e inquebrantáveis na atual conjuntura brasileira: muitos jovens de hoje – e até famílias inteiras de assalariados – não conseguem se manter sem o salário da aposentadoria dos avós e dos benefícios sociais de pais e mães, os quais servem como sustentáculo dos mais pobres e daqueles que vivem na forca da batalha assalariada diária da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), que é uma conquista histórica.
Foi a senha necessária para uma lição histórica, em que as gerações passaram a não se ver como opostas nem desconectadas, mas do mesmo lado de uma moeda, aplicando a lição que muitas empresas ainda querem ver na prática no campo profissional: diferenças entre gerações não sendo vistas como obstáculos, mas como oportunidades de crescimento e inovação. Foi assim que uma onda contagiou não apenas idosos e seus netos dentro de casa, mas famílias inteiras de todo o país, contaminando assalariados, servidores, aposentados, indígenas, migrantes, trabalhadores rurais, autônomos, deficientes, estudantes…
Mas isso não foi percebido e nunca imaginado pelos políticos jovens que chegaram ao poder arrebanhando votações históricas por meio da lacração, com cortes de vídeos produzidos para alcançar tanto a nova geração, ávida por transformações imediatas, quanto a velha geração que é induzida a acreditar que essa fórmula na internet pode manter a estabilidade e a tradição que eles julgam em risco, enquanto os mais jovens estavam inebriados por mudanças e novidades em discursos exaltados.
A lição fica não só para jovens políticos de alta performance eleitoral, mas para toda uma sociedade que precisa aprender que, independente das realidades diferentes entre as gerações, com distintas visões de mundo, o conflito geracional pode muito bem se encaixar no quadro de evolução da sociedade e das novas tecnologias que moldam a forma como nos comunicamos e interagimos. Os idosos são exemplos de realidade e contexto, enquanto os jovens desempenham o papel de transmitir essa imagem para redesenhar os algoritmos nas redes sociais, desta vez baseados em valores sólidos, criando uma onda poderosa na internet.
Quando se unem a velha guarda (defendendo valores e conquistas históricas) e os jovens (que perceberam que podem dominar as ruas da mesma forma que dominam o campo minado da internet), o poder se curva. Foi assim que o Congresso sentiu a pressão e votou o fim da escala 6×1 e das Bets. E foi na esteira desse novo despertar que as eleições brasileiras nunca mais serão as mesmas, com uma geração que já nasce plugada na internet que nunca mais poderá subestimar gerações que muitos julgavam estar ultrapassada e outra alienada pelos algoritmos da lacração.
*Por Jessé Souza
jesseroraima@hotmail.com
