
O mês de julho terminou com a perturbadora notícia sobre um jovem de 21 anos que foi assassinado e teve seu corpo desovado e queimado dentro da área da lagoa de estabilização no bairro São Bento, zona Oeste da Capital, fato este registrado na sexta-feira passada, dia 31. Pelo histórico daquele setor da cidade, as características indicam um acerto de conta muito provavelmente por tráfico de droga.
Embora o bárbaro crime tenha ganhado algumas linhas de notícias policialescas na imprensa e nas redes sociais, sem aprofundamento dos fatos, o caso do brutal assassinato remete a outros problemas tão sérios quanto a criminalidade à qual aquela região está submetida pelo tráfico de droga controlado por facções criminosas, além de outras sérias mazelas.
A realidade daquele imenso terreno da lagoa de estabilização – que passou a ser chamada de “fossão”, como se fosse algo novo – é tão perturbadora quanto aquele crime do corpo carbonizado. Tratam-se de problemas antigos em que as mazelas passaram a surgir diante da imobilidade das autoridades que fingem não notar o que está ocorrendo por lá.
A questão começa pelo completo abandono do terreno da lagoa de estabilização da Estação de Tratamento de Esgoto (ETA), o fossão. O terreno é cercado, garantindo o isolamento da área, mas que historicamente foi abandonada, sem limpeza, sem vigilância e os cuidados necessários para que o lugar insalubre provoque o mínimo de impacto aos milhares de moradores do entorno e para que a área não seja utilizada por usuários de droga, ladrões e faccionados.
O resultado disso é que aquela imensa área, localizada no meio dos bairros São Bento, Centenário e Araceli, além de servir para bandidos e usuários de drogas se esconderem ou os ladrões ocultarem os produtos de furto, tornou-se um ponto central de domínio das facções, que se sentem fortalecidas em uma área onde o poder público não chega, muito menos os moradores, pois é um lugar fétido, cujo odor se erradia por toda vizinhança da localidade.

A ausência do poder público por ali também permitiu que uma invasão surgisse na vizinhança, na área do antigo lixão que foi desativado, que é outro setor marcado por mazelas, chamado pejorativamente de “Morro da Sacola”. Esse apelido é pelo fato de brotar dos terrenos as sacolas plásticas que foram depositadas no lixão e que levam um século para se decomporem, revelando problemas ambientais e sociais, cujas famílias são discriminadas e colocadas no mesmo saco da generalização da criminalidade.
Os primeiros moradores que ocuparam aquela área dentro do São Bento batizaram o local de “Bairro Nova Vida”, nome que não emplacou devido aos problemas sociais e à criminalidade que passou a dominar as precárias casas da invasão em meio aos resíduos do antigo lixão – o que facilmente pode ser denominada de “favela”. Até houve tentativa de desapropriação, em 2015, mas as autoridades lavaram as mãos.
Da mesma forma que permitiram que a invasão se estabelecesse, também consentiram que os problemas sociais se enraizassem, que a criminalidade avançasse e as facções se fortalecessem. Vez por outra, um foragido ou traficante do crime organizado é apreendido por lá. Essa realidade soma-se à vergonhosa situação da lagoa de estabilização ao redor dos três bairros ali localizados.
Em tempo de período pré-eleitoral, é muito propício que essas questões sejam discutidas, pois nos últimos quatro anos aquele setor do “Morro da Sacola” foi usado politicamente pelo discurso de “direita x esquerda”, com o fato indo parar na imprensa nacional como um local dominado por facções venezuelanas e onde polícia não entrava, como se o país já estivesse “se tornando uma Venezuela” a partir de Roraima.
É verdade que as facções agem por lá e que a criminalidade se beneficia da imensa área da lagoa de estabilização abandonada e desvigiada. No entanto, ali moram famílias, em sua maioria, que foram abandonadas pelo poder público e que vivem numa área insalubre, sem infraestrutura necessária, na insegurança e sem os programas sociais necessários para combater as mazelas.
Antes de ser um antro da bandidagem e área sob o domínio do crime organizado, ali são cidadãos submetidos ao mais alto grau da ausência do poder público e do olhar dos políticos que só aparecem para prometer e pedir votos.
*Por Jessé Souza
