Envolvimento de policiais penais em recentes ocorrências apontam para um passado preocupante

Operação Alésia, em 2020, foi o caso mais emblemático de envolvimento de policiais penais com o crime (Foto: Divulgação)

Casos de policiais penais em envolvimento com crimes divulgado pela imprensa, nas últimas semanas, parece uma situação nova em Roraima. Mas só parece. Um levantamento feito com base no que foi divulgado nos jornais, entre 2024 e 2026 mostra casos públicos que envolvem policiais penais em crimes eleitorais, tráfico de drogas, adulteração de veículos e homicídio no trânsito.

O caso mais emblemático foi a Operação Alésia, desencadeada em dezembro de 2020, pela Polícia Federal, que prendeu 23 policiais penais e outros servidores investigado por uma suposta organização criminosa infiltrada na estrutura da Secretaria de Estado da Justiça e da Cidadania (Sejuc) Sejuc, principalmente policiais penais lotados na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo (Pamc).

Conforme a PF, os agentes penais facilitavam a entrada de celulares e drogas no presídio, permitiam visitas não autorizadas e autorizavam transferências de internos para unidades com condições melhores de cumprimento de pena. A investigação foi um desdobramento da Operação Érebo, que investigava o domínio de facções sobre a Pamc, casos estes revelados em interceptações telefônicas apontando contatos irregulares entre a administração da unidade e membros da cúpula de facções.

Essa duas grandes operações foram emblemáticas, pois também houve buscas policiais na Corregedoria da Sejuc, no plantão de custódia do Hospital Geral de Roraima (HGR) e em empresas de um grupo empresarial controlado por dois condenados por crimes sexuais contra vulneráveis, os quais teriam se beneficiado dos ilícitos no sistema prisional.

Quatro anos depois, em outubro de 2024, a Polícia Federal e o Ministério Público de Roraima (Gaeco) deflagraram operações que investigaram um esquema de comércio ilegal de armas de fogo e munições, descoberto a partir da análise de material da Operação Alésia. O grupo seria chefiado por dois policiais penais e contava com pelo menos 11 integrantes, sendo nove da segurança penal, além de um policial civil e um garimpeiro investigado por compras de armas e munições.

As negociações ocorriam principalmente via WhatsApp e tinham garimpeiros como principais clientes, sendo que parte do grupo incluía também policiais militares. Na mesma operação, foram alvos o então comandante-geral da PM e o filho dele, que é policial penal, além de um deputado, que também é policial penal.

No mesmo período, em outubro de 2024, três policiais penais foram presos em flagrante pela PF (incluindo um candidato a vereador que acabou se elegendo) sob acusação de compra de voto durante as eleições, em que o desdobramento final foi a cassação do vereador cujo caso está em fase final de recurso na Justiça Eleitoral.

Neste ano, dois casos chamaram atenção. Em julho passado, um policial penal foi preso em ação da PF que apreendeu 1,6 tonelada de cianeto ligados ao garimpo ilegal na Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Neste mês de agosto, um policial penal foi preso pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) na BR-343, na cidade de Piripiri (Piauí), suspeito de integrar esquema de transporte interestadual de drogas.

O segundo caso chama a atenção porque não foi a primeira vez que o policial se envolveu em um caso suspeito. Em julho de 2024, ele foi preso em flagrante, em Boa Vista, juntamente com outro policial penal, após serem abordados pela Polícia Militar em um veículo com placas adulteradas, armas de fogo, munições, carregadores, rádios comunicadores, coletes balísticos, algemas e outros equipamentos.

Aí está uma radiografia sobre aqueles que deveriam cuidar do sistema prisional roraimense, um setor delicado para o controle da criminalidade e do avanço do crime organizado no Estado. Se quem deveria cuidar do sistema está envolvido em crimes, então o sinal vermelho precisa estar sempre ligado. A aparente tranquilidade no sistema prisional não significa que esteja tudo bem.

*Por Jessé Souza

jesseroraima@hotmail.com

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