
Tornou-se um debate nacional a chamada “farmação de aura”, termo que surgiu nas entranhas de jogos online na internet, que veio do ato de farmar” (usado em videogames para repetir tarefas e ser premiado com recursos) e de “aura” (ter carisma ou tornar-se uma pessoa admirável).
Ao saltar das telas para a vida real, a modinha do momento faz a pessoa tentar se destacar, seja por meio de movimentos com as mãos, dancinhas ou trejeitos com o corpo aparentemente ridículos ou incompreensíveis para quem não é familiarizado com esse novo mundo.
Os religiosos já falam que é coisa do demônio. Os intelectuais chamam de imbecilidade. Os direitistas dizem que é doutrinação comunista. Os esquerdistas classificam como alienação da extrema direita. Os offline e carteira assinada (CLT) franzem a testa e chamam de desocupados.
A questão ficou tão séria que até em Boa Vista teve concurso de farmação de aura. Em alguns estados, a polícia já está reprimindo os farmadores. Inclusive tem até faccionados avisando que não querem ninguém farmando aura em seus redutos. Quando bandidos e policiais estão juntos é sinal de que há algo muito errado.
O fato é que os filhos da “eguinha pocotó” agora estão criticando e reprimindo os filhos do “boquinha da garrafa”. É uma guerra geracional tão inútil quanto os movimentos daquelas épocas, em que críticas contundentes dividiam opinião com análises filosóficas.
O pocotoísmo foi um movimento que surgiu em 2003 com MC Serginho e sua dançarina Lacraia, que se tornaram um fenômeno nacional na TV com o funk em que o jumento e o cavalinho levavam a eguinha pocotó para passear. A música era basicamente isso: pocotó-pocotó-pocotó. E crianças e adultos se jogavam de corpo e alma na música, na dança e nos concursos.
Duas décadas depois veio o movimento da boquinha-garrafismo em 2023. Assim como o pocotoísmo, tornou-se sucesso estrondoso que ocupava a maior parte do horário nobre dos programas dominicais da TV. A música basicamente era: “…e vai dançando na boquinha da garrafa…”, quando novamente crianças, adultos e idosos tinham suas mentes e corpos sequestrados por aquele sucesso contestado também por intelectuais, religiosos e afins da época.
Quase duas décadas depois, vem a farmação de aura como se fosse algo trazido por ETs, comunistas, esquerdistas ou demonistas. Logo as teses começaram a analisar o fenômeno, dividindo opinião, arrebanhando adeptos e indo parar na programação dominical noturna da maior emissora de TV com a importância de um assunto de interesse nacional.
Mas o fato é que todos estão esquecendo que já tivemos o pocotoísmo e o boquinha-garrafismo logo ali, a cada duas décadas, quando os pais dos críticos de hoje estavam cavalgando com a eguinha pocotó ou dançando na boquinha na garrafa também sob críticas, ignorância, demonização e injúrias de quem assistia a TV da mesma forma que a atual geração fica abduzida pelas redes sociais.
Não que as farmadores de aula estejam levando isso muito a sério. São os críticos e julgadores que assim estão agindo, como se estivéssemos beirando um fim de mundo inevitável. Enquanto isso, assuntos realmente sérios e relevantes que deveriam ser discutidos estão sendo deixados de lado ou mesmo cerceados na imprensa nacional e evitados por algoritmos nas redes sociais.
Os críticos estão colocando a carroça na frente do jumento e do cavalinho. Ou achando que movimentos e trejeitos feitos em praça pública irão gerar uma instabilidade no equilíbrio social e econômico como se pensavam de uma dancinha na boquinha na garrafa transmitida ao vivo na TV. Enquanto isso, os políticos, religiosos e a elite mundial se divertem…
*Por Jessé Souza
