Crise na saúde Yanomami e a situação de omissão e descaso que vem de muito longe

Crise na saúde Yanomami se intensificou com nova invasão garimpeiro a partir de 2016 (Foto: Divulgação)

Está óbvio que há um movimento orquestrado tentando transformar a crítica situação da saúde do povo Yanomami em um instrumento político com a chegada do período de campanha eleitoral no país. No entanto, a grave crise humanitária enfrentada por essa etnia não é algo recente e remonta a décadas de omissão e descaso por parte do governo brasileiro.

Nas décadas de 1970 e 1980, diversas doenças como malária, sarampo, doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), coqueluche e desnutrição dizimaram várias aldeias do povo Yanomami, que atualmente ocupam uma área de 9.664.975,4800 hectares com a população distribuindo-se entre os estados de Roraima (Amajari, Alto Alegre, Mucajaí, Caracaraí e Iracema) e Amazonas (Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira).

Em um período mais recente, a ameaça de invasões garimpeiras se ampliou novamente. Conforme dados do Ministério Público Federal (MPF), entre agosto de 2020 e fevereiro de 2022, foram registrados 3.059 alertas de novos pontos de extração mineral na região da Terra Indígena Yanomami, afetando uma área de 10,86 km². Apenas em janeiro de 2022, foram 216 alertas de garimpo.

Entre 2016 e 2021, o garimpo ilegal na Terra Yanomami cresceu 3.350%, estando associado ao aumento da malária, desnutrição infantil, contaminação humana e ambiental por mercúrio e aumento da exploração sexual. Foram atingidos 16 mil indígenas em 273 comunidades, o equivalente a 56% da população Yanomami total (29 mil habitantes distribuídos em 350 aldeias).

Essa nova explosão do garimpo só piorou a situação dos Yanomami, já significativamente afetados pela alteração no regime tradicional de uso e ocupação do seu território, além do assoreamento dos recursos hídricos, contaminação e intoxicação por mercúrio e outras substâncias nocivas, além do desmatamento e queimada.

Além disso, essas populações continuam sofrendo por falta de saneamento básico poluição do ar, dos recursos hídricos, do solo e sonora devido ao uso intensivo de maquinários de garimpo, barcos e aviões que dão suporte ao garimpo. Além disso, o alcoolismo, desnutrição, doenças não transmissíveis e transmissíveis, insegurança alimentar, piora na qualidade de vida e violência de todos os tipos (ameaça, assassinato, coação física, lesão corporal e violência psicológica).

O cenário não poderia ser diferente. Nesse auge do garimpo, foram 951 mortes registradas, com a piora na realidade entre 2023 e 2025, quando foram 1.121 mortes motivadas por doenças e violência ligada ao crime organizado que se apoderou do garimpo ilegal. No início de 2026, um surto de coqueluche resultou na morte de pelo menos três crianças Yanomami entre 1º de janeiro e 19 de fevereiro, com 31 casos notificados e 12 confirmados.

Os dados do Ministério da Saúde indicam uma queda de 27,6% nas mortes Yanomami até janeiro de 2026, atribuída a ações de saúde pública, ampliação de equipes médicas, abertura de hospital indígena e aumento da vacinação. Houve também melhorias em infraestrutura, como acesso a água potável e energia, além de maior organização nos fluxos assistenciais, contribuindo para diagnósticos precoces e intervenções oportunas.

Mesmo com avanços, a presença de garimpeiros ilegais continua sendo uma ameaça significativa, mantendo o risco de doenças, violência e desnutrição. Líderes Yanomami destacam que, embora o governo realize patrulhamentos terrestres e fluviais e destrua acampamentos ilegais, a presença de invasores ainda preocupa a população indígena,

O fato é que, neste ano de 2026, a situação Yanomami apresentou melhorias em saúde e redução de mortes, mas surtos de doenças e a presença de garimpeiros ilegais ainda representam riscos importantes. As autoridades entendem que a crise humanitária permanece um desafio, exigindo monitoramento contínuo e políticas públicas eficazes para proteger a vida e a dignidade dos Yanomami.

P.S.: Dados e informações retirados do “Mapa de Conflitos Envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil – O garimpo ilegal e o genocídio yanomami”

*Por Jessé Souza

jesseroraima@hotmail.com

Deixe uma resposta