
O caso do desaparecimento de um grupo de pessoas nas proximidades de comunidades indígenas dominadas pelo garimpo ilegal, no Município de Normandia, a Nordeste do Estado, é só mais um capítulo de uma guerra provocada pelo domínio da exploração de ouro ilegal que tem atraído ações criminosas para a Terra Indígena Raposa Serra do Sol.
Até agora, as informações são desencontradas. Não se sabe quantas pessoas estão desaparecidas, em quantos carros o grupo estava, nem o que eles foram fazer naquela região de garimpo na Comunidade Napoleão. O que se tem de oficial é que um carro que havia sido alugado pelo grupo foi encontrado todo depredado e que uma das pessoas desaparecidas é um jovem que mora em Boa Vista, que é cabo do Exército.
A versão da família é que o militar teria ido à região fazer uma cobrança de uma suposta dívida não paga na negociação de terra ou ouro, o que confirmaria a ligação com o garimpo ilegal, uma vez que se trata de terra indígena, que não pode ser negociada em hipótese alguma, além de ser proibida a exploração mineral por lei federal.
O fato é que episódios de violência e de ações de grupos armados e violentos atuando nas áreas de garimpo nas comunidades indígenas de Normandia é recorrente, apesar das operações policiais realizadas na região contra o garimpo ilegal. Inclusive, em uma delas, ocorreram ações intimidatórias contra agentes federais praticadas por indígenas que apoiam as atividades ilegais de garimpagem e por membros de grupos criminosos que atuam por lá.
Em maio passado, indígenas armados com arco e flecha, além de arma de fogo, perseguiram cinco viaturas da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama) que realizavam uma operação que resultou na desarticulação de uma estrutura de mineração ilegal que utilizava substâncias tóxicas altamente perigosas, como cianeto e mercúrio, na Comunidade Napoleão.
Um mês antes, em abril, um grupo armado invadiu uma área de garimpo na mesma comunidade indígena, onde os elementos chegaram atirando e agredindo pessoas, inclusive levaram dois veículos, os quais foram incendiados posteriormente, mostrando uma possível atuação do crime organizado que aos poucos começou a se instalar nas terras indígenas em possível acerto de conta por causa do garimpo.
A Operação Heisenberg, deflagrada em julho pela PF, mostrou que os apoiadores do garimpo ilegal não se intimidam, pois foram apreendidos 3,7 kg de ouro, 17 carotes de produtos químicos, arma de fogo, motores e outros equipamentos utilizados na garimpagem. A cada operação policial, os garimpeiros se organizam novamente, inclusive indígenas servidores públicos que se submetem a empréstimo bancários para adquirir novos equipamentos para a extração de minérios.
As primeiras denúncias da ação do garimpo ilegal em Normandia foram feitas por lideranças indígenas em março de 2021, quando pelo menos mil pessoas ocupavam três áreas de garimpo com barracões cobertos com lonas na Serra do Atola, na Comunidade Indígena Raposa II. A demora das autoridades federais para agir permitiu o avanço do garimpo nas comunidades Raposa I, Raposa II, Napoleão e Tarame, cujas atividades ilegais se fortaleceram com estrutura patrocinada por empresários, políticos e garimpeiros vindos da Guiana.
A ação de garimpeiros e indígenas apoiadores do garimpo do outro lado da fronteira da Guiana é outra questão, pois há uma ação orquestrada partindo do país vizinho, o que tem provocado conflitos em várias outras comunidades indígenas brasileiras localizadas próximas da fronteira. O cenário é de registro de mortes, ameaças a lideranças indígenas, aliciamento de jovens indígenas para o alcoolismo e prostituição, além do tráfico de droga.
Ainda não se sabe o desenrolar do caso do grupo de pessoas desaparecidas em Normandia. Mas a certeza é a necessidade de uma ação firme e contínua das autoridades federais não só ali naquela região da Raposa e Napoleão, mas em toda Terra Indígena Raposa Serra do Sol. A ação devastadora do garimpo ilegal pôde ser vista recentemente na poluição da Cachoeira Urucá, no Município do Uiramutã. Agora, a atenção está voltada para ações violentas em Normandia, onde o crime se organiza.
*Por Jessé Souza
