
Na crônica policial, mais uma ação contra o tráfico de droga no Município de Rorainópolis, Sul de Roraima, realizada pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado em Roraima (FICCO/RR), na terça-feira, 23, quando quatro pessoas suspeitas de integrar um grupo criminoso que mantinha pontos de venda, de distribuição e de armazenamento de entorpecentes.
No entanto, fazendo uma análise mais acurada das notícias divulgadas nos últimos meses, é possível perceber que Rorainópolis registrou diversas operações policiais contra o tráfico de drogas, com prisões de faccionados e apreensões de cocaína, skunk, pasta base e armas. Em junho de 2026, pelo menos duas grandes ações resultaram em flagrantes e desarticulação de grupos locais.
Uma pesquisa realizada por esta Coluna, de agosto de 2025 a maio de 2026, permite um panorama geral da ação da FICCO, que realizou 163 prisões nas regiões Sul e Centro Sul, que englobam os municípios de Rorainópolis, Caracaraí, São Luiz do Anauá, São João da Baliza e Caroebe, com 49 mandados judiciais cumpridos, seguidos de apreensões de cocaína, skunk, armas de fogo, munições e dinheiro proveniente do tráfico de drogas.
Historicamente, as operações indicam que Rorainópolis tornou-se rota estratégica de entrada de drogas vindas do Amazonas, além de ser ponto de distribuição para cidades vizinhas. As ações policiais apontam a presença de facções criminosas, o que significa que o tráfico está organizado e conectado a redes maiores, inclusive com a cooptação de policiais, com capilaridade envolvendo desde líderes até motoristas de aplicativo fazendo entrega em festas locais.
O tráfico de drogas por lá tem raízes históricas favorecido por sua posição estratégica na divisa com o Amazonas. A partir dos anos 2000, facções como Comando Vermelho (CV) e Família do Norte (FDN) consolidaram presença na região, aproveitando rotas de garimpo, pistas clandestinas e ausência de fiscalização. Nos últimos anos, operações policiais têm desarticulado bocas de fumo e prendido dezenas de envolvidos, mas o problema permanece estrutural.
No início dos anos 2000, com o crescimento da criminalidade urbana e rural, Rorainópolis se tornou a “porta de entrada” do crime em Roraima, diante do avanço do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami e desmatamento pelo tráfico de madeira que criou um ambiente propício para o narcotráfico. No período de 2010 a 2014, facções nacionais começam a se organizar a partir do sistema prisional, com associação entre Família do Norte (FdN) e Comando Vermelho (CV) em 2014, no Amazonas.
Em 2016, houve uma tentativa das autoridades de enfrentar o avanço do crime, com a implantação de sistema de videomonitoramento que ajudou a reduzir crimes em até 80%. Mas, curiosamente, o sistema foi desativado poucos anos depois, deixando a cidade vulnerável novamente. Em 2019, o marco do avanço da criminalidade foi o latrocínio contra empresária Joice Camilo, mostrando a escalada da violência, com a população insegura e indefesa.
Em 2024, começou a ser registrada a presença de faccionados foragidos de Manaus (AM), ampliando o domínio das organizações criminosas, com o registro de dois crimes brutais em maio daquele ano, com um feminicídio cujo principal acusado é um policial militar, e a execução de um empresário à luz do dia em uma área de grande movimento. As ações criminosas acabaram obrigando as autoridades a realizarem uma operação integrada, em dezembro, que resultou na prisão de 23 pessoas e fechamento de cinco bocas de fumo nas vilas Nova Colina e Jundiá.
Mas o crime continuou avançando e, em 2025, o Sul de Roraima seguiu “sitiado pelo crime”, inclusive com registro de interceptação de combustível de avião utilizado para tráfico aéreo. Ao mesmo tempo que era registrada a presença da facção venezuelana Tren de Aragua (TDA), que expandiu influência em Roraima, especialmente em Boa Vista, conectando-se a redes criminosas brasileiras.
O levamento histórico mostra que Rorainópolis é um epicentro do tráfico no Sul de Roraima, com raízes profundas ligadas à ausência de Estado e à presença de facções. Embora as operações policiais venham sendo realizadas, com intensificação neste ano de 2026, o problema mostra-se cíclico, com prisões e apreensões reduzindo momentaneamente o tráfico. Porém, sem políticas permanentes de segurança e políticas públicas, o crime volta a se reorganizar logo em seguida.
*Por Jessé Souza
