
A palavra é ludopatia. Significa o vício compulsivo em jogos e apostas, que pode começar a partir de uma isca aparentemente inocente por meio de uma propaganda nas redes sociais e durante as transmissões de jogos de futebol na TV. Uma aposta pequena pode ser a porta para a promessa de dinheiro rápido e fácil, desencadeando um vício difícil de ser livrar.
A Copa do Mundo de futebol escancarou o poder das Bets (abreviação da palavra em inglês “betting”, que significa apostas) que estão onipresentes na mídia tradicional e nas redes sociais, com acesso na palma da mão por meio do celular, que é armadilha preferencial porque acaba se tornando parte da vida de uma pessoa, que passa não ter mais a possiblidade de “parar quando quiser”.
Quem circula por locais de atendimento ao público, onde muitas pessoas ficam aguardando a vez por um bom tempo, logo percebe que esse vício se tornou uma epidemia, em que muitos estão concentrados no joguinho com a cara na tela do celular tentando a sorte na ilusão de pagar dívidas ou reforçar o orçamento familiar cada vez mais curto.
A ludopatia é um termo praticamente desconhecido e seus sintomas se apresentam sem que ninguém perceba, pois as vítimas podem começar como uma despretensiosa diversão, conforme a ilusão é vendida nas propagandas, em que as pessoas podem apostar onde estiverem: deitada em casa, no intervalo do trabalho, na fila do posto de saúde, durante a diversão no barzinho na madrugada ou mesmo enquanto se espera o ônibus.
Quando menos se percebe, a pessoa está viciada, gastando o dinheiro do orçamento familiar, pegando empréstimo bancário on-line, vendendo imóveis e se endividando fatalmente com agiotas. Com o vício compulsivo instalado, muitos não suportam a vergonha, as dívidas impagáveis e os problemas familiares, profissionais e pessoas decorrentes de dívidas, optando por tirar a própria vida.
A internet está cheia de relatos aterradores de familiares que não perceberam o abismo dessa doença invisível. Com um número cada vez maior de pessoas acometidas por ludopatia, é necessário que a sociedade entenda que não se trata mais de problemas e tragédias isoladas, mas um problema de saúde pública e uma questão que passa por apoio jurídico para que vítimas do vício compulsivo possam recorrer à Justiça por reparações.
Não basta prender influenciadores e bloquear judicialmente suas contas bancárias, ainda que isso represente um passo essencial para enfrentar o problema, mas também punir principalmente as Bets pelo agravamento da vulnerabilidade dos viciados como consumidores e a responsabilidade de indenizá-los por danos morais, além da nulidade das operações dos que se afundarem em dívidas impagáveis.
Os legisladores precisam ser cobrados para que criem mecanismos legais para obrigar as empresas a agirem rápido para atenderem aos pedidos de bloqueio definitivo de aplicativos feitos por pessoas que se sintam lesadas ou prejudicadas, além da obrigação das Bets para emitirem alertas imediatos aos apostadores contumazes, bem como regular as propagandas na mídia e redes sociais da mesma forma como ocorreu com as propagandas de cigarro.
Essa discussão precisa ser tão acalorada quanto se discute partidas de clubes e seleções de futebol. Tão importante quanto qualquer outra doença que acomete a população brasileira. E com toda seriedade de um problema crônico que tem custado a vida de muitos e um maior endividamento da população brasileira, além do envolvimento com lavagem de dinheiro associado ao crime organizado no país.
*Por Jessé Souza
