
Diante do grande impacto que a diáspora venezuelana tem provocado ao Estado de Roraima desde 2018, tornou-se importante acompanhar os grandes eventos que impactam a Venezuela. E a nova tragédia provocada por dois potentes terremotos no país vizinho, ocorridos no dia 24 passado, é um desses eventos que se somam ao cenário de incerteza que, em tese, podem provocar uma nova onda migratória.
No entanto, tem surgido um novo cenário no âmago dessa tragédia, com estimativa de mais de 1.400 mortos e um cenário de terra arrasada com mais de 100 edifícios completamente destruídos em La Guaira, onde há centenas de desaparecidos e milhares de feridos. O novo governo venezuelano está aberto a ajuda externa, o que mostra uma ruptura com as políticas do governo anterior, que só aceitava ajuda de países aliados ideologicamente.
Essa abertura permitiu que Acnur no Brasil, que é a agência da Organização das Nações Unidas (ONU) para refugiados que atua especialmente em Roraima, se mobilizasse para estar presente na Venezuela com a missão de acolher os desabrigados e doar itens essenciais, como tendas, kits de cozinha, colchões e cobertores. E isso já ameniza um possível impacto de uma nova migração em massa rumo ao Brasil, a partir de Roraima.
Acima disso, é importante destacar que essa nova tragédia evidencia o encontro das duas realidades entre o governo de Nicolás Maduro, com sua política do chavismo, e a intervenção do governo dos Estados Unidos (EUA), que em janeiro ordenou a invasão de forças militares americanas para capturar Maduro, que governava o país desde 2013 e que foi levado para Nova York sob a acusações de narcotráfico.
A partir de lá, a Venezuela é governada pela então vice-presidente Delcy Rodríguez, aliada de Maduro, que administra um país frágil em todos os sentidos diante dos inúmeros desafios enfrentados pela precária infraestrutura do país. Mas a situação degradante a que chegou a Venezuela não é somente resultado de mais de 25 anos de Chávez e Maduro no poder. A má gestão foi somada à dura escassez provocada pelas sanções impostas EUA que provocaram a deterioração do país vizinho.
Não se trata apenas da incompetência de ministros militares em pontos estratégicos e sem experiência técnica, em que o poder militar sempre foi priorizado em relação a políticas públicas e investimentos em infraestrutura e defesa civil. Para se ter uma ideia, o bloqueio econômico afetou a indústria estatal venezuelana que fornecia cimento, levando à falta do produto para fazer reparos necessários em edifícios e moradias, os quais ficaram mais vulneráveis a desabamentos.
Embora La Guaira seja o principal ponto de entrada da Venezuela, onde fica o aeroporto que serve a Caracas com voos internacionais, além de um dos centros econômicos e turísticos mais importantes, com intensa atividade comercial e portuária, a maioria das casas residenciais de lá é construída precariamente com tijolos sem reboco e com blocos de adobe, ou seja, de barro.
O que ocorreu na Venezuela só pode ser comparado ao grande terremoto que atingiu o Haiti, em 2010, tragédia esta que teve como combinação a alta densidade populacional onde havia construções frágeis, infraestrutura precária e baixa capacidade de resposta das autoridades. É o que está acontecendo exatamente nesse momento no país vizinho, onde a ajuda internacional será decisiva para a reconstrução daquele país.
*Por Jessé Souza
