
Se a situação da contaminação de peixes por mercúrio, em Roraima, já era considerada preocupante a partir de um estudo divulgado em 2022, o qual foi desenvolvido em 2021 por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Instituto Socioambiental (ISA), do Instituto Evandro Chagas e da Universidade Federal de Roraima (UFRR), uma nova pesquisa que está sendo em andamento, este ano, promete um cenário ainda mais alarmante.
No estudo de 2021, os pescados coletados em três de quatro pontos na Bacia do Rio Branco apresentaram concentrações de mercúrio maiores ou iguais ao limite estabelecido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e a Organização Mundial da Saúde (OMS). A pesquisa apontou uma contaminação muito alta para algumas espécies de peixes, como o filhote, que é muito consumido pelos roraimenses, a ponto de não mais existir nível seguro para o seu consumo, não importando a quantidade ingerida.
Conforme o estudo, os índices altos de contaminação foram constatados em trechos do Rio Branco em Boa Vista (25,5%), Baixo Rio Branco (45%), Rio Mucajaí (53%) e Rio Uraricoera (57%). Os pesquisadores apontaram que as altas taxas de contaminação observadas seriam decorrentes das inúmeras frentes de garimpos ilegais de ouro instalados nas calhas dos rios Mucajaí e Uraricoera, na Terra Indígena Yanomami.
No Uraricoera, ponto mais próximo à Terra Yanomami, a cada 10 peixes coletados, seis apresentaram níveis de mercúrio acima dos limites estipulados pela OMS. No Rio Branco, na altura da Capital, a cada 10 peixes coletados, aproximadamente dois não eram seguros para consumo, o que mostra que, mesmo as pessoas que vivem em Boa Vista, distantes da terra indígena, não estão mais livres dos impactos do mercúrio utilizado no garimpo ilegal.
Desta vez, pesquisadores voltaram a campo em busca de informações consistentes sobre a qualidade ambiental dos rios de Roraima que drenam a Terra Yanomami e as Unidades de Conservação federais sob gestão do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Conforme publicações preliminares sobre o projeto, a finalidade é identificar a potencial contaminação dos peixes, das águas superficiais e dos sedimentos na Bacia do Rio Branco.
O estudo que está em andamento é uma parceria do ICMBio com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama), Ministério do Meio Ambiente (MMA) e do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). E as notícias não são nada animadoras, com evidências apontando para um problema que se ampliou nesses últimos anos, mostrando que as ações do garimpo ilegal foram reduzidas, mas os seus reflexos não.
O estudo anterior já indicava que 45% do mercúrio usado em garimpos ilegais é despejado em rios e igarapés. O mercúrio liberado de forma indiscriminada pode permanecer por até cem anos na natureza. Nas crianças, os problemas podem começar ainda na gravidez. Se os níveis de contaminação forem muito elevados, pode haver abortamentos ou o diagnóstico de paralisia cerebral, deformidades e malformação congênita. Os bebês podem desenvolver limitações na fala e na mobilidade. Na maioria das vezes, as lesões são irreversíveis.
A boa notícia é que o consumo de peixes conhecidos na região continua sendo possível para espécies como matrinxã, aracu, jaraqui, pacu, jandiá e outras, mas desde que com moderação. A pesquisa aponta que o barba chata, coroataí, filhote, piracatinga e pirandirá são peixes carnívoros com risco muito alto, que devem ser consumidos no máximo em uma porção de 50 gramas, uma vez ao mês. A recomendação é que mulheres grávidas evitem o consumo dessas espécies durante toda a gravidez.
Espécies como dourada, mandubé, liro, pescada, piranha preta e tucunaré também são peixes carnívoros com alto risco, não devendo o consumo exceder a 200 gramas por semana. As espécies de peixes não-carnívoros como curimatã, jaraqui, matrinxã e pacú apresentam médio e baixo risco, demandando menos restrições para o consumo. A recomendação é que podem ser consumidos em porções de até 300 gramas por dia.
O novo estudo deverá traçar uma realidade mais atual sobre a contaminação de peixes e os riscos às populações indígenas e ribeirinha, além da população consumidora de pescado. Até que a pesquisa seja concluída e publicada, o que levará ainda um certo tempo, as recomendações do estudo anterior estão bem atuais, com a população devendo ficar atenta ao alerta dos especialistas, especialmente mulheres grávidas e crianças.
*Por Jessé Souza
