Em Brasília, ATL reage a projetos no Congresso e defende demarcação de terras indígenas, se posicionando contra a tese do Marco Temporal,enquanto em Roraima manifestantes protestam contra morte de jovem liderança

Milhares de indígenas de todo o Brasil marcham, nesta terça-feira, 7, pela Esplanada dos Ministérios, em Brasília. O ato integra a 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL 2026), evento que começou no domingo, 5, e é considerado a maior e mais importante mobilização do movimento no país.
Os makuxi, wapichana, tikuna, kokama, makuxí, tupinambá, pataxó, krahô, apinajé, guajajara, krikati, gavião e representantes de parte dos 391 povos indígenas remanescentes deixaram o palco principal do ATL, no Eixo Cultural Ibero-Americano, ainda pela manhã dessa quinta-feira, 6.
Sob sol forte, o grupo percorreu os 6 quilômetros até o Congresso Nacional, principal alvo das críticas do movimento, que acusa a maioria dos deputados federais e senadores de propor e aprovar leis contrárias aos direitos constitucionais dos povos originários, colocando em risco seus territórios e modos de vida.
Os indígenas também acusam parlamentares e os governos federal e estaduais de cederem à pressão do agronegócio, da mineração e de grandes empreendimentos, permitindo a exploração econômica de territórios tradicionais por não indígenas.
Pintados e usando os adereços característicos de suas etnias, os indígenas carregavam seis grandes faixas com os dizeres Congresso Inimigo Dos Povos; Nosso Território Não Está À Venda; O Futuro É Indígena; Marco Temporal É Golpe; Demarcação É Futuro e Marco Temporal Não.
Para cumprir um acordo com os órgãos de segurança do Distrito Federal, os indígenas deixaram seus arcos, flechas, bordunas, lanças e zarabatanas no acampamento e ocuparam três das seis faixas e parte do gramado do Eixo Monumental, avenida que corta o Plano Piloto no sentido leste-oeste.
“Nossa marcha é pacífica, rumo a um Congresso que não é pacífico, é inimigo dos povos indígenas”, criticou um dos membros da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), entidade organizadora do ATL. “Viemos pintar Brasília do vermelho do urucum e da resistência do jenipapo, trazendo a força, a resistência e a ressurgência indígena”, acrescentou antes do início da marcha.
Marco Temporal
Outro alvo recorrente das críticas indígenas é o Marco Temporal, tese jurídica que estabelece que os indígenas só têm direito aos territórios que ocupavam em outubro de 1988, quando a Constituição Federal foi promulgada.
Em 2023, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou o Marco Temporal inconstitucional. Mesmo assim, em 2025, o Senado aprovou a proposta de emenda à Constituição (PEC) que impõe o limite temporal às reivindicações indígenas por demarcações.
Como os senadores modificaram o texto que a Câmara dos Deputados aprovara em 2023, a PEC foi devolvida para os deputados federais reanalisarem a proposta, o que ainda não aconteceu.
Os manifestantes também reivindicam que o Governo Federal reconheça mais terras indígenas. Segundo as lideranças do movimento, após um período de quatro anos (2019-2022) no qual nenhuma nova área de ocupação tradicional foi homologada, o Governo Federal validou, entre janeiro de 2023 e novembro de 2025, 20 novos territórios.
Segundo a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), os novos territórios equivalem a cerca de 2,5 milhões de hectares de terras protegidas em 11 unidades federativas. “Mas seguimos nessa luta, nesse pleito pela garantia territorial”, explicou o coordenador executivo da Apib, Dinamam Tuxá, à Agência Brasil, no domingo.
“Temos um passivo de demarcação muito alto e um cenário de muita violência e vulnerabilidade nas terras indígenas que governo algum conseguiu superar. Isso tem sido um fator motivador para os povos indígenas virem a Brasília apresentar nossas pautas”, disse Dinamam. Ele informou que há, em análise, cerca de 110 novas áreas reivindicadas como terras da União de usufruto indígena.
Convidada a falar do alto do caminhão de som, a ex-presidente da Funai e primeira mulher indígena eleita deputada federal, Joenia Wapichana, destacou a importância dos indígenas “aldearem a política”, conforme propõe as lideranças do movimento.
“Estamos aqui para dizer que os povos indígenas têm capacidade para serem o que quiserem: parlamentares, autoridades públicas, representantes políticos. E essas ferramentas estão à nossa disposição”, afirmou. “Os povos indígenas estão atentos, sabem dos seus direitos”, acrecentou, destacando a necessidade de mais orçamento para os órgãos públicos de proteção indígena, como a Funai e a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde (Fonte: Alex Rodrigues – Agência Brasil).
Em Roraima, ATL ocorre em Amajari

A edição do Acampamento Terra Livre (ATL) em Roraima começou na manhã de segunda-feira, 6, na Comunidade Indígena Mangueira, região de Amajari, no Centro Regional de Educação Indígena do Amajari Noêmia Peres, Norte de Roraima.
O ato é marcado pelo pedido de justiça pela liderança jovem Gabriel Ferreira, encontrado sem vida após dez dias de buscas no mês de fevereiro passado. As lideranças contestam o laudo apresentado pela Polícia Civil que apontou duas hipóteses: acidente ou homicídio sem afastar nenhuma delas, reforçando a necessidade de aprofundamento das investigações e de adoção de novas medidas.
Por esse motivo o tema da edição da ATL 2026 é “Quem matou Gabriel? Mexeu com um, mexeu com todos”, reforçando o pedido de justiça e da intervenção dos órgãos federais sobre o caso. “Hoje Gabriel Ferreira completaria 29 anos de idade, mas, infelizmente não está aqui para celebrar esse momento, tiraram a vida do nosso irmão de luta aqui em Roraima, e nós não aceitamos isso, queremos justiça por Gabriel Ferreira”, disse uma das lideranças presentes no ATL.
“A forma como o caso está sendo tratado é inaceitável. Pedimos que os órgãos federais acompanhem o caso. Ele era uma liderança ameaçada e o caso não pode ficar impune, muito menos cair no esquecimento. Estamos aqui, faça chuva ou faça sol, pedindo explicações concretas e principalmente justiça por Gabriel”, afirmou outra liderança.

O Acampamento Terra Livre reúne, na RR-203 cerca, principal estrada do Município de Amajari,cerca de 800 pessoas entre mulheres, jovens, homens lideranças e demais representantes das regiões do Baixo Cotingo, Serra, Alto Cauamé, Tabaio, Amajari, Wai Wai, Murupu, Serra da Lua, Raposa, Alto Miang e Itacutu.
Também participam organizações, parceiros e apoiadores da causa indígena, que reforçam o pedido por justiça e fortalecer a luta pela demarcação das terras indígenas, além de reivindicar melhorias nas áreas da saúde e educação nas comunidades e reafirmar o posicionamento e resistência indígena contra as ameaças ambientais e legislativas sofridas nos últimos tempos.
Paralelamente à manifestação, uma comissão formada por lideranças de Roraima participa do Acampamento Terra Livre em Brasília com o tema, “Nosso futuro não está à venda: A resposta somos nós”. São cerca de 30 pessoas incluindo parte da coordenação executiva do Conselho Indígena de Roraima (CIR) que estão acampadas no Eixo Cultural Ibero Americano. A delegação acompanha e participa de mesas de debates, marchas e incidências no Congresso Nacional.
O Acampamento Terra Livre é a maior mobilização indígena do Brasil. O evento tem como objetivo principal fortalecer a luta pelos direitos indígenas, promover o diálogo sobre políticas públicas e dar visibilidade às pautas relacionadas à demarcação de terras, preservação ambiental e valorização das culturas indígenas.
Em Roraima, a mobilização encerra-se no domingo, 12. A programação envolve debates, palestras com temas diversos, além da exposição de artesanato, apresentações de danças e cantos tradicionais. Veja abaixo momentos durante o VI Acampamento Terra Livre Roraima na Comunidade Mangueira (Fotos: ASCOM/CIR):





