
Enquanto a Polícia Rodoviária Federal (PRF) anunciou a maior apreensão de mercúrio de sua história, em Roraima, na semana passada, algo muito sério vem ocorrendo na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, que se estende pela fronteira com a Venezuela e Guiana, onde a atividade garimpeira é legalizada ou mesmo as ilegalidades são toleradas pelas autoridades dos países vizinhos.
Na sexta-feira da semana passada, dia 10, a PRF fez a apreensão de 400Kg de mercúrio usado no garimpo ilegal. No entanto, no período de duas semanas, as apreensões pela PRF chegaram a 835Kg do material tóxico usado por garimpeiros para separar o ouro dos rejeitos assim que o material é retirado do solo ou das rochas que são moídas.
É muito provável que o produto vindo ilegalmente da Guiana esteja abastecendo os garimpos na Raposa Serra do Sol, especialmente nas regiões dos municípios de Uiramutã e Normandia, os quais sofrem forte pressão do garimpo ilegal que vem da fronteira guianense e que conta com apoio de políticos, fazendeiros e empresários de garimpo que migraram da Terra Indígena Yanomami.
Mas entre o que é noticiado sobre a ação do garimpo ilegal, que vem se apoderando de regiões da TI Raposa Serra do Sol, e o que é informado à opinião pública há uma lacuna muito grande. Sem dúvida, a ação da criminalidade é um desses reflexos que estão sendo omitidos, além das visíveis agressões ao meio ambiente e riscos à saúde humana devido aos produtos tóxicos usados na exploração mineral.
Em Normandia, o crime já começa a se organizar e mostrar seu poder. Na noite de 8 de abril passado, na região da Comunidade Raposa, nas proximidades da Comunidade Napoleão, homens com rostos encobertos por máscaras ou com capuz transitavam em uma caminhonete pela região e se dirigiram a uma área de garimpo que funciona de dentro das terras da Comunidade Napoleão.
O grupo armado chegou atirando e invadiu o local onde está instalado um moinho usado para prospecção de ouro. O homem que trabalhava como “gerente” do local foi agredido pelos elementos para que informasse onde estava o proprietário daquela área de garimpo ilegal. Não satisfeitos, dois veículos foram levados do local e depois incendiados pelos bandidos.
Essa foi apenas um episódio da violência que toma conta das áreas de garimpo de Normandia, dominada por brasileiros e guianenses, onde o tráfico de droga se estabeleceu e, a reboque, outras mazelas se estabelecem como furtos e assaltos, vendas de bebidas alcóolicas para indígenas, prostituição de jovens e adolescentes, além da invasão das comunidades e aliciamento dos indígenas.
Enquanto o lucro do garimpo ilegal é levado embora por não indígenas e guianenses que financiam a estrutura e logística do garimpo ilegal, para os indígenas ficam apenas uma pequena parcela do dinheiro pago a quem se submete ao trabalho árduo, sem qualquer direito, ou a lideranças indígenas e moradores para que sejam coniventes ou defendam as atividades ilegais, fechando os olhos para a criminalidade e outras graves mazelas.
Quem não concorda e não se submete acaba sendo expulso ou forçado a ir embora. Os indígenas cooptados pelos financiadores do garimpo têm agido com violência, inclusive um policial federal foi atingido por uma flechada no braço, recentemente, durante uma operação policial. Esse é o cenário que normalmente não aparece na mídia com todos os seus detalhes ou que não pode aparecer nas redes sociais de quem mora na região. O crime se apodera das terras indígenas.
*Por Jessé Souza
