Maio Amarelo e as seguidas tragédias na guerrilha gratuita no trânsito roraimense

Cena do acidente que matou técnica de enfermagem na Avenida Ville Roy, em 4 de fevereiro (Foto: Divulgação)

Embora a campanha Maio Amarelo tenha sido lançada somente agora em Roraima, visando conscientizar a sociedade em busca da redução de mortes e feridos no trânsito, o mês já havia sido marcado por mais uma tragédia no trânsito. Uma mãe morreu no momento do atropelamento de uma família inteira que caminhava na calçada na Avenida Ataíde Teive, na divisa dos bairros Caimbé e Asa Branca, na manhã de domingo, dia 3. Duas crianças e o pai ficaram feridos.

Além do feriadão que iniciou no dia 1º, o Estado ainda passava pelo turbilhão de mudanças na condução do Estado após a confirmação da cassação do governador Edilson Damião, que havia herdado a administração do então governador cassado Antonio Denarium. O fato é que troca-se de governo, mas a realidade da violência no trânsito segue como um dos grandes desafios, custando a vida de muitas pessoas e de sequelas muitas vezes irreversíveis provocados em centenas de vítimas anuais.

A propósito, no mesmo dia em que um motorista bêbado perdeu o controle do carro e atropelou a família que caminhava na calçada, o governador interino Soldado Sampaio, que acabara de assumir, visitava o Hospital Geral de Roraima (HGR), onde constatou o que havia ficado oculto nesses últimos anos: a falta de leitos para os pacientes, com vários deles deitados em macas espalhadas pelos corredores. Obviamente, os acidentes de trânsito contribuem de forma decisiva para o aumento de pessoas hospitalizadas, impactando nos gastos e superlotando os leitos.

Mas o ano já vinha registrando outras tragédias no trânsito. Na manhã do dia 6 de março, uma sexta-feira, outra tragédia impactou a opinião pública, quando um homem que fazia caminhada morreu atropelado no trecho urbano da RR-205, estrada que dá acesso ao Município de Alto Alegre, em mais uma cena da guerrilha gratuita no trânsito roraimense em que a imprudência é a principal causa que tem tirado a vida das pessoas.

O acidente foi provocado por um carro da Secretaria Estadual do Trabalho e Bem-Estar Social (Setrabes), que trafegava em alta velocidade numa via que vem registrando problemas desde o início das obras de duplicação e iluminação, em junho de 2022. Vários protestos foram realizados por moradores prejudicados por falta de sinalização que evitasse acidentes e da inexistência de retornos que atendessem aos moradores dos bairros Cidade Satélite e Jardim Primavera, em clara evidência de falha na engenharia de trânsito.

Antes disso, na noite de 4 de fevereiro, outro caso de grande repercussão mostrou como os acidentes de trânsito são tratados quando pessoas influentes estão envolvidas. Uma jovem de 19 anos, filha de um capitão da PM que trabalhou como chefe de Segurança do então governador Denarium, atropelou e matou a técnica de enfermagem Patrícia Melo da Silva, 53, que estava de moto, na avenida Ville Roy. A condutora colidiu com uma caminhonete S-10 na traseira da motocicleta.

O caso tornou-se emblemático, pois a condutora do carro era a estudante Amanda Kathryn Monteiro de Souza, 19, que passou a ser suspeita de usar da influência do pai, o capitão da PM Helton John Silva de Souza, para obter tratamento diferenciado durante a ocorrência, liberada sem fazer o teste do bafômetro, além da alteração da cena do acidente. O capitão é aquele investigado no rumoroso caso da morte de um casal no Município do Cantá, que este mês irá completar dois anos de impunidade, cujo suspeito de ter sido o autor dos tiros segue foragido até hoje.

Aqui estão os principais enredos que favorecem os acidentes de trânsito em Roraima: a irresponsabilidade dos condutores, a falta de medidas para combater o excesso de velocidade e outras infrações, inexistência de fiscalização rigorosa e efetiva, além da impunidade que começa no tratamento dispensado a quem tem influência (“Você sabe com que está falando?”). Se tudo isso não for combatido de forma exemplar, campanhas como a do Maio Amarelo jamais surtirão o efeito desejado. E o momento é propício para uma séria reflexão.

*Por Jessé Souza

jesseroraima@hotmail.com

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