Quando jogo do tigrinho, política partidária e religião se encontram na mesma encruzilhada

Muitos brasileiros passaram a acreditar que podem ser o próximo a ficar milionários (Imagem: Divulgação)

Embora a prisão de influenciadores do “jogo do tigrinho” em Roraima e a cassação do governador Edilson Damião e da inelegibilidade do ex-governador Antonio Denarium – ambos condenados por abuso de poder econômico e político – sejam fatos completamente distintos, eles acabam se cruzando de alguma forma, apresentando várias camadas que precisam de uma análise mais acurada.

A prisão dos influenciadores, de uma forma geral, representa uma esperança de que algo efetivo seja feito para frear a ação dos jogos virtuais patológicos como Bets e Tigrinho, que têm provocado a ruína da saúde mental e da vida financeira de muitas pessoas assalariadas. Famílias inteiras estão sendo impactadas pela dependência de jogos de azar que podem ser acessados na palma da mão pelo celular.

Enquanto muitos têm suas vidas destruídas, não apenas pelo superendividamento como por ações extremas de tirar a própria vida, um pequeno grupo de influenciadores patrocinados por plataformas de jogos virtuais ficam milionários do dia para a noite, com o duto de lavagem de dinheiro ilícito sendo levado por atividades paralelas empresariais, inclusive portal de notícias.

O que chamou a atenção também é que, mesmo com movimentações milionárias, uma das influenciadoras ainda conseguiu se habilitar para receber o benefício social Bolsa Família, enquanto muitas mães que realmente precisam nunca conseguiram o benefício. Em outra ponta, havia quem já estivesse partindo para a política partidária, visualizando não só a possibilidade de cabo eleitoral de luxo, mas com recurso para ajudar a financiar quem estivesse disposto a entrar no jogo.

Quando os ilícitos se cruzam com a política, é quando se percebe a contaminação de disputas eleitorais por todos os tipos de crime que movimentam dinheiro e visam o poder para se beneficiar dele. E foi assim que os políticos perceberam que o povo é suscetível a promessas, a dinheiro fácil para resolver seus problemas mais urgentes e a acreditar que sempre haverá um salvador para que sua vida melhore. É a mesma lógica que pastores evangélicos usam para arrebanhar pagadores de dízimo que os tornam milionários enquanto eles pregam um paraíso na pobreza.

A cassação do governador Damião e a inelegibilidade de Denarium, os quais compunham a chapa eleita para governar Roraima, vem dessa premissa de explorar as necessidades mais básicas de um povo habituado a receber cestas básicas, de buscar vantagens para resolver seus problemas em vez de lutar por políticas públicas e de adorar políticos que apresentam políticas assistencialistas como base para um projeto de poder.

Está no imaginário popular de que sempre alguém ou alguma coisa poderá resolver sua vida com um passe de mágica. Não foi à toa que, na trama golpista, manifestantes não hesitaram em pedir ajuda para extraterrestres. Da mesma forma que acreditam que a Mega Sena, o jogo do bicho ou o jogo do tigrinho um dia poderão mudar suas vidas de forma extraordinária. Enquanto esperam pelo extraordinário, esse mesmo povo se anestesia com os favores, promessas e boca de urna da política.

Aí surge a submissão à promessa do paraíso, à idealização de um mito ou de um paizão na política, a um lance de sorte em um jogo mesmo sendo de azar e à crença que muitos alimentam de que serão os próximos milionários, o próximo empresário de sucesso ou mesmo a ser abduzido por uma raça superior. É aqui onde jogo do tigrinho, política e religião se cruzam, enquanto a única encruzilhada deveria ser mesmo a porta da prisão.

*Por Jessé Souza

jesseroraima@hotmail.com

Deixe uma resposta