
Não se trata tão somente da nomeação de mulheres para o comando da Segurança Pública em Roraima. Há um significado maior, que é o fim do ciclo de um setor estratégico que sempre tolerou em seu comando pessoas enredadas com algum tipo de denúncias, investigações sobre crimes ou suspeitas de irregularidades, algo que vai de encontro com a premissa fundamental de mudança no rumo da Segurança a fim de garantir o bem-estar da sociedade.
Obviamente fica para a História a primeira mulher a ocupar o comando da Polícia Militar de Roraima, a coronel Valdeane Alves de Oliveira. Em outra ponta, a delegada Eliane Gonçalves foi nomeada secretária de Segurança Pública e a delegada Simone Arruda do Carmo assumiu a Delegacia-Geral da Polícia Civil. Fecha-se uma tríade que fica responsável por enfrentar os números negativos sobre Roraima no que diz respeito ao feminicídio, estupros, crime organizado, tráfico de droga, facções venezuelanas e a criminalidade de uma forma geral que avança especialmente na periferia roraimense.
Não se trata de acreditar que um governo tampão possa resolver os problemas que afligem o Estado. No entanto, é um sinal positivo de ruptura com aquilo que não estava no caminho certo, embora as propagandas institucionais afirmassem o contrário. Parecia algo distante pensar que todos aqueles envolvidos em algum tipo de ilegalidade ou irregularidade pudessem sucumbir e serem trocados para que não tivessem mais ingerência na Segurança Pública.
Até aqui, o nome da instituição Polícia Militar de Roraima passou a ser citado em uma longa lista de acusações, envolvendo 40 policiais militares, que inclui formação de milícia e grupo de extermínio para proteger e roubar garimpeiros. As investigações apontaram roubo, extorsão, torturas, assassinatos e tráfico de drogas. O ex-comandante da PM foi um dos citados em inquérito com investigações conduzidas pela Polícia Civil e Polícia Federal, que apontam para uma organização criminosa formada por policiais que não só protegia o garimpo ilegal, como também vendiam armas e munições ilegais.
Não pode ser esquecido o episódio da major PM Adriane Severo, que corajosamente enfrentou o sistema comandado pela machosfera que sempre dominou as entranhas dessa instituição. Ao gravar um vídeo no dia do aniversário de 80 anos da PM, em novembro de 2025, ela sofreu represálias por cobrar valorização profissional dos policiais militares, com reposição salarial e fim de promoções que tinham como critério o favorecimento político.
Além disso, junto com a Polícia Militar, a Polícia Civil tem a obrigação de enfrentar a realidade que fez de Roraima um Estado perigoso para as mulheres, pois segue com a mais elevada taxa de crimes contra as mulheres (homicídio, estupro, violência psicológica e perseguição), todos acima da média nacional, conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, tanto em 2023 quanto em 2024, com relação à taxa de homicídio de mulheres e de feminicídio.
Não há mais como esconder essas duras realidades que sempre foram varridas para debaixo do tapete institucional. Se os homens não fizeram e ainda se envolveram nas mais diversas suspeitas de crimes e irregularidades, então só resta à população depositar suas últimas esperanças de que daqui para frente essa realidade possa mudar definitivamente para melhor, espelhando futuras decisões políticas, seja quem estiver na condução dos governos locais.
*Por Jessé Souza
