Grupo que venceu eleição na APBM-RR liderado por uma major rompe ciclo histórico de duas décadas

Chapa vencedora para comandar APBM-RR foi encabeçada pela major PM Adriane Severo (Foto: Divulgação)

Os ventos de mudança na Segurança Pública sopraram favoravelmente e chegaram a uma entidade que historicamente seguia nas mãos do mesmo grupo e sempre comandada por homens. Trata-se da Associação dos Policiais e Bombeiros Militares do Estado de Roraima (APBM-RR), que agora será comandada por uma mulher que assumiu a missão de liderar os ares de mudança a partir de um novo grupo.

Foram 22 anos que a Associação dos Policiais e Bombeiros Militares do Estado de Roraima permaneceu sob a influência do mesmo grupo político, uma realidade que parecia permanente. Mas isso até a eleição da major Adriane Severo e de sua chapa, que conseguiu romper um ciclo histórico dentro de uma das instituições mais simbólicas da Segurança Pública roraimense.

O resultado dessa eleição não é o mais simbólico dentro do contexto, e sim o que essa mudança representa. Major Adriane severo é aquela do vídeo divulgado no dia do aniversário de 80 anos da Polícia Militar de Roraima, cobrando valorização e respeito à tropa. Ela vem se consolidando como uma das principais lideranças femininas da Segurança pública de Roraima. Sua trajetória tem chamado a atenção justamente porque não nasceu dos caminhos tradicionais da política local, os quais sempre estão ligados a favorecimentos e apadrinhamentos.

Roraima é um Estado onde boa parte das figuras femininas da política surge sempre ligada a sobrenomes fortes, heranças familiares ou grupos já consolidados. Adriane construiu sua liderança de outra forma: no serviço, na rotina da caserna, nas ruas, nas madrugadas de trabalho, na convivência direta com a tropa e na coragem de se posicionar mesmo quando isso lhe custava caro. Ou seja, sua liderança não foi herdada. Foi construída.

Essa construção não surgiu a partir daquele vídeo corajoso que provocou reações no grupo político que estava no poder, mas construída na poeira do asfalto, nas noites sem dormir, nas escalas operacionais, no desgaste de quem conhece a realidade da Segurança Pública não pelos corredores da política, mas pela vivência diária da profissão.

Ainda como soldado, Adriane trabalhou na Capital e no interior, conhecendo a realidade da ponta. Viveu as dificuldades que muitos policiais e bombeiros militares enfrentam diariamente. Por isso conseguiu criar algo raro dentro do ambiente institucional, que é a identificação genuína com a base. Foi assim que, ao longo dos anos, tornou-se uma voz ativa na defesa dos interesses da tropa.

Em uma instituição dominada por homens, isso trouxe consequências. Ela foi alvo de perseguições, enfrentou assédio moral, respondeu procedimentos administrativos e conviveu com tentativas constantes de silenciamento. Ainda assim, nunca escolheu o caminho que seria mais confortável, que é o da omissão. E aqui está um dos pontos centrais dessa história. Porque dentro de instituições militares, onde a hierarquia é fundamento essencial, nunca é simples sustentar posicionamentos, especialmente quando eles contrariam estruturas já consolidadas. Ainda mais sendo mulher.

Se já é difícil ocupar espaços de liderança em ambientes comuns, dentro de uma instituição historicamente masculina os desafios costumam ser ainda maiores. O machismo estrutural, muitas vezes silencioso, ainda impõe barreiras que poucas pessoas de fora conseguem compreender completamente. Foi dentro desse contexto que a figura da major Adriane ganha força simbólica. Não por representar apenas uma vitória eleitoral, mas por representar resistência.

A ascensão da major não foi construída em gabinetes, nem por articulações familiares tradicionais. Foi construída enfrentando desgastes, críticas, isolamento e o peso de se posicionar em um ambiente onde, muitas vezes, o mais conveniente é permanecer calado. Por isso, a eleição da APBM acaba revelando algo maior do que uma simples mudança administrativa. Evidencia o surgimento de uma liderança feminina dentro da Segurança Pública de Roraima construída pela própria trajetória, pela identificação com a tropa e pela coragem de sustentar posições mesmo diante das consequências.

Foi assim que, mais do que vencer uma eleição, Adriane Severo acabou se tornando a voz de muitos policiais e bombeiros militares que, há anos, sentiam que já não eram mais ouvidos exatamente porque as vozes vinham sendo silenciadas não só por pressões políticas, mas também por conveniências ou mesmo por medo da mão pesada do sistema.

jesseroraima@hotmail.com

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