
Enquanto o calor, seca, incêndios e fumaça atormentam as populações de Manaus e cidades vizinhas, devido à influência do super El Niño que se intensificou neste mês, em Roraima os sinais de que a situação do fogo e da seca podem sair do controle puderam ser observados no principal ponto turístico consolidado do Estado, a Serra do Tepequém, no Município de Amajari, no fim de semana passado.
A Vila Tepequém sediou o maior evento de corrida de rua, no sábado, o Tepequém UP, para onde se deslocaram cerca de 3 mil pessoas no fim de semana. Embora o Corpo de Bombeiros tenha deslocado uma equipe para dar apoio ao evento esportivo, não havia estrutura mínima para prevenção e combate ao fogo, apesar da forte estiagem e dos riscos de incêndios, o que fatalmente acabou ocorrendo.
A primeira ocorrência foi registrada no fim da tarde de sexta-feira, 18, quando operários estavam soldando a estrutura de ferro do Portal que está sendo instalado na entrada vila. Uma faísca acabou dando início a um incêndio, mostrando que a empresa não tinha preparado seus trabalhadores para fazer limpeza da área nem disponibilizou extintores para que pudessem agir em casos de acidentes.
A consequência foi um fogo descontrolado, que não apenas avançou sobre a vegetação, como também atingiu um poste da rede elétrica, provocando a falta de energia por quase duas horas na vila no momento que começava a receber centenas de turistas. Não fosse a ação de moradores e dos brigadistas voluntários da própria comunidade, o fogo teria avançado sobre o Platô e outras áreas turísticas, a exemplo da Cachoeira do Cupim e sítios próximos, o que poderia avançar para o Mirante a Pedra Mão de Deus.
Como não havia uma equipe de prontidão, os moradores tiveram que agir, alguns usando bermudas e sandálias, outros que estavam se divertindo e ingerido bebidas alcóolicas, mas que se sentiram no dever de ajudar indo para a linha de frente, revelando o grande risco a que essas pessoas foram submetidas, sem preparo para atuar no combate ao fogo e sem os devidos equipamentos básicos de proteção, alguns apenas com galhos de árvores e baldes com água.
Um grupo de moradores de Tepequém passou por recente treinamento de prevenção e combate ao fogo, no início do mês. Mesmo assim, não há equipamentos suficientes para que possam atuar com segurança e eficácia. Muito menos foram equipados com o mínimo, como capacete de segurança, luvas de couro, botas de segurança e uniforme antichamas. Agir sem estrutura mínima significa colocar a própria vida em risco.
No sábado à tarde, um novo incêndio foi registrado nos lavrados da Vila Cabo Sobral, que é o Berço Histórico de Tepequém. Devido à experiência ruim de quem arriscou suas vidas no incêndio anterior, e por muito estarem ocupados nas atividades turísticas ou envolvidos na corrida que estava sendo realizada naquele momento, o pedido de ajuda não foi atendido pela comunidade e muito menos pelas autoridades, que não tinham sequer um veículo para enviar brigadistas da Vila Brasil, que é a sede do Amajari.
A situação só não se tornou uma tragédia maior porque um casal de brigadistas (ele brigadista estadual e ela uma brigadista voluntária) decidiram agir sozinhos, com equipamentos básicos, a fim de evitar o pior. Sem apoio de ninguém, eles conseguiram controlar o avanço do fogo no início da noite, mostrando a distância entre a realidade dos fatos e o discurso das autoridades em relação a situações de emergência que os eventos climáticos estão exigindo nesse momento de forte estiagem.
No Amazonas, as imagens aterradoras de fogo e fumaça que avançam em Manaus e seu entorno estão circulando nas redes sociais e na imprensa. Em Roraima, onde a estiagem já mostra seus fortes impactos, o cenário na Serra do Tepequém foi suficiente para mostrar que, quando o cenário piorar, poderá não haver tempo e estrutura para o controle, com sinal anunciado de que poderemos ter uma das maiores tragédias ambientais dos últimos tempos.
*Por Jessé Souza
jesseroraima@hotmail.com
