Reviravolta na eleição para deputado estadual e os reflexos de 23 anos do ‘Caso Gafanhoto’

Operação Praga do Egito investigou o chamado “esquema gafanhoto” na folha de pagamento do governo

Não se trata apenas de sombras de um fantasma do passado. A decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que confirmou o indeferimento do registro de candidatura da deputada estadual Aurelina Medeiros (União Brasil), que se reelegera para oitavo mandato, condenada por improbidade administrativa no “Caso dos Gafanhotos”, é reflexo de 23 anos da Operação Praga do Egito. Realizada em 26 de novembro de 2003 pela Polícia Federal, essa operação prendeu 42 pessoas em um único dia no maior esquema de corrupção já registrado pela Justiça de Roraima.

O escândalo ocorreu durante a gestão do então governador Neudo Campos, no período de 1995 a 2002, que envolveu o governador, secretários estaduais, deputados estaduais e federais, além de dois conselheiros do Tribunal de Contas do Estado (TCE). Foram 85 denunciados em 52 processos, um esquema responsável por um desvio superior a R$ 230 milhões de verbas públicas para o pagamento de 5,5 mil servidores fantasmas, chamados à época de “gafanhotos” por “comerem” a folha de pagamento do governo sem trabalhar.

Foi nesse processo que Aurelina foi condenada a devolver R$ 1,5 milhão aos cofres públicos, além de juros e correção monetária, bem como a perda da função pública, suspensão dos direitos políticos por cinco anos, proibição de contratar com o Poder Público ou receber benefícios ou incentivos e pagamento de multa de R$ 159.958,88. Embora a sentença de primeira instância tenha sido publicada em 2014, só foi confirmada por unanimidade pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) em 2025.

Essa morosidade da Justiça é que tem provocado esses reflexos de um caso que acaba indo mofar na gaveta da amnésia da opinião pública, permitindo que condenados nesse rumoroso caso sigam suas vidas políticas como se nada tivesse ocorrido. Nesse caso específico, os efeitos da decisão recairão sobre o resultado eleitoral, em que deverão ser invalidados os 8.272 votos recebidos por Aurelina e a possível retotalização dos votos para ocupar a cadeira na Assembleia Legislativa.

Mas o “caso gafanhoto” vem provocando outros reflexos ao longo dessas mais de duas décadas. Os conselheiros do TCE Marcus Rafael de Hollanda Farias e Henrique Manoel Fernandes Machado foram condenados pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). O então senador Mecias de Jesus, hoje conselheiro do próprio TCE e marido de uma deputada eleita, também foi condenado junto com o ex-governador Neudo Campos.

O ex-deputado estadual Jalser Renier, que chegou a ser preso duas vezes pela PF nas eleições desse ano, foi outro condenado pela “gafanhotagem”, inclusive chegou a cumprir a sentença no semiaberto, saindo da cadeias para presidir as sessões da Assembleia Legislativa, até ser cassado definitivamente em votação histórica no Legislativo roraimense. Mas o envolvimento do ex-deputado em casos de grande repercussão não para por aí.

Jalser Renier foi um dos investigados pela Polícia Civil de Roraima, que encontrou os indícios que levaram à comprovação da existência de uma milícia armada instalada na Assembleia Legislativa na época em que ele presidia a Mesa Diretora. O grupo seria comandado pelo então deputado e formado por policiais militares de elite, incluindo três coronéis e um major, todos lotados no Serviço de Inteligência e Segurança Orgânica da Assembleia (SISO).

Conforme os autos do processo, entre 2015 e 2020, por ordens do então deputado, o grupo teria praticado uma série de crimes, incluindo espionagem de adversários, sequestro, fornecimento de armas para garimpos ilegais e segurança armada para empresas e políticos. A polícia também identificou ligação do grupo investigado nos negócios da financeira By Money, que movimentou de forma ilícita mais de R$ 90 milhões no ano passado e que “faliu” logo após as primeiras prisões dos envolvidos.

O SISO foi criado pelo próprio deputado Jalser em 2016, quando ocupava a presidência da ALE, e que tinha como atividade principal a apuração de fatos relacionados ao parlamento roraimense. No entanto, as atividades do grupo iam muito além dos interesses institucionais da Casa. A mando do então deputado, policiais do SISO teriam planejado e executado o sequestro e tortura do jornalista Romano dos Anjos, durante as eleições municipais de 2020, além de promoverem uma série de interferência para atrapalhar as investigações do caso.

Aí estão as conexões do esquema de gafanhotagem com outros casos que acabam caindo no esquecimento. Os que não seguiram sendo eleitos ou reeleitos conseguiram emplacar seus familiares, enquanto outros conseguem furando os bloqueios de uma Justiça que caminha com o peso de um paquiderme  e que deixa muitas brechas para os condenados e os envolvidos em grandes escândalos seguirem impunes, provocando sobressaltos na política roraimense.

*Por Jessé Souza

jesseroraima@hotmail.com

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