
A investigação da Polícia Federal (PF) sobre a fuga para os Estados Unidos do ex-diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) durante o governo Bolsonaro, Alexandre Ramagem, em setembro do ano passado, acabou encontrando fartas trocas de mensagens entre ele e a família do empresário de mineração Rodrigo Martins de Mello, o Rodrigo Catarata, acusada de ter fornecido auxílio material e hospedado Ramagem logo na sua chegada à Flórida, quando foi considerado foragido do Brasil.
Por traz dessa investigação há uma conexão entre a família Catarata, a Terra Indígena Yanomami e a fuga de Ramagem para os EUA, conforme mostra uma matéria publicada pela Agência Pública, intitulada “Família de condenado por garimpo na terra Yanomami bancou vida de Ramagem nos EUA”, cuja apuração foi feita com apoio do ICIJ, Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos.
Rodrigo Cataratas foi condenado em fevereiro deste ano a 16 anos e sete meses de prisão por liderar uma organização criminosa responsável pela mineração ilegal de cassiterita e ouro dentro da Terra Indígena Yanomami. Meses antes de ser condenado, ele chegou a anunciar que concorreria ao Senado por Roraima pelo PRD, quando se mudou para a Guiana, onde segue operando no garimpo no país vizinho.
Conforme a reportagem, a PF encontrou uma série de diálogos, fotos e notas recuperados do celular que comprovariam que a família de Rodrigo Cataratas não só ajudou na fuga de Ramagem do Brasil através do Município de Bonfim, que faz fronteira com a cidade de Lethem, na Guiana, em 9 de setembro de 2025. Da Guiana, Ramagem pegou um avião para os EUA, onde teria chegado no dia 11 de setembro.
Ramagem estava proibido de sair do Brasil desde junho de 2025. Ele foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 11 de setembro de 2025 a 16 anos de prisão pela tentativa de golpe de Estado. Os ministros consideraram que ele utilizou a estrutura da Abin para monitorar adversários e apoiar a trama golpista. Ele também perdeu o seu mandato como deputado federal e o cargo que tinha na PF.
Desde 21 de novembro, antes da condenação, o STF já havia decretado a prisão preventiva de Ramagem por suspeita de fuga. A esposa dele, Rebeca Ramagem, atua como procuradora do Estado de Roraima, em Brasília, e está afastada para disputar as eleições desse ano como candidata a deputada federal pelo Partido Liberal (PL) do Rio de Janeiro.
O desenrolar dos fatos mostra que, enquanto Ramagem desfruta do apartamento de Cataratas, com 96 m², com valor do aluguel que começa em cerca de 20 mil reais por mês (3,7 mil dólares), em Roraima o Ministério Público Federal (MPF) investiga um potencial genocídio do povo indígena Yanomami a partir da invasão deliberada de suas terras e a ação do garimpo entre 2021 e 2022, comandada por Catarata, com 23 aeronaves empregadas no esquema de extração ilegal de ouro e cassiterita na Terra Yanomami.
É só mais um capítulo envolvendo o garimpo ilegal…
*Por Jessé Souza
jesseroraima@hotmail.com
