Rap honra legado no Mormaço e abre espaço para jovem negra falar sobre crimes contra a mulher

MC Rafah Black (também do detalhe) se posicionou sobre feminicídio no show de Aka Junin (Imagens: Reprodução)

Não foi apenas um detalhe no Festival Mormaço Cultural 2026 que se encerrou no domingo, aos pés do Mirante do Parque Rio Branco. Foi um gigantismo do Rap roraimense ter aberto espaço no palco para uma jovem negra falar sobre o feminicídio, um sério problema que Roraima tem enfrentado ao longo dos anos com seguidos casos brutais.

O show era do Aka Junin, na noite de sábado, no Palco Lua, onde a MC Rafah Black, que é professora, historiadora do Hip Hop e se identifica nas redes sociais como poeta marginal, tratou do espinhoso tema de crimes praticados contra as mulheres para chamar a atenção da sociedade. É o Rap honrando seu legado de ser a voz silenciada da periferia e que incomoda os ouvidos da sociedade que não querem escutar o barulho da verdade.

A cultura Hip Hop sabia do tamanho do desafio ao ter conquistado o espaço no Mormaço 2026, responsabilidade essa dos cantores de Rap que se apresentaram no Teatro Municipal de Boa Vista e no Parque Rio Banco, além do grupo periférico Plugadão, que atua ativamente no fortalecimento da cultura urbana e que uniu, no palco alternativo do Mormaço, a música, as batalhas de rimas, o skate, a dança e outras manifestações artísticas e culturais do movimento Hip Hop roraimense.

Convidada de Aka Junin, Rafah Black falou sobre feminicídio e outros crimes contra mulheres e crianças

E Rafah Black não deixou passar no esquecimento com sua fala parecendo espinhos nos tímpanos do mundo que tem normalizado a cultura da violência contra a mulher e os feminicídios que têm impactado o Estado nos últimos dias, cujo caso que mais chamou a atenção foi o da administradora Telma de Mello Faria, 36 anos, executada pelo ex-companheiro com cinco tiros ao chegar para trabalhar, na manhã de quinta-feira passada, dia 17.

Em seguida, outro caso veio à tona: o da técnica em radiologia Michele Soares de Deus, 48 anos, que morreu no Hospital Geral de Roraima (HGR). O marido dela, o servidor público Elvys Omar da Silva, de 44 anos, foi preso preventivamente na sexta-feira, 17, por suspeita de matar a mulher e simular que ela sofrera uma queda da cama, na tentativa de encobrir uma agressão que a deixou gravemente ferida na cabeça

Os números expostos naquele momento do show de Aka Junin não podem ser esquecidos. Não pode ser ignorado que o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 destacou Roraima como um dos estados com taxas elevadas de crimes contra as mulheres, entre homicídio, estupro, violência psicológica e perseguição, todos acima da média nacional. Não é só o Rap que precisam se indignar. A sociedade não pode mais tolerar isso.

*Por Jessé Souza

jesseroraima@hotmail.com

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