
O mês de novembro começou confirmando os estudos que indicam seca e grande risco de incêndios em Roraima, nos últimos meses do ano, e que devem se estender até o primeiro semestre de 2027. Ainda em setembro, dados divulgados pelo Instituto Socioambiental (ISA), tendo como base a plataforma Tropical Tidbits, indicavam chuvas abaixo da média histórica do Estado a partir desse período.
As previsões já indicavam que o déficit pluviométrico poderia criar um cenário propício à ocorrência e à propagação de incêndios florestais e queimadas descontroladas nas áreas de lavrados. Boletim do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) corroborava a análise do ISA ao projetar que os incêndios em Roraima tendiam a se intensificar em decorrência da influência do fenômeno El Niño, sendo os efeitos mais agudos previstos para o período entre janeiro e março de 2027.
Devido à falta regular de chuvas, o nível das águas do Rio Branco em Boa Vista vem registrando quedas desde setembro. A partir de outubro a situação já era considerada crítica, quando registrava nível de 80cm, ficando abaixo da linha inferior de permanência estatística de 90%, o que classifica como relevantes anomalias negativas. Na noite dessa segunda-feira, 02, chegou a registrar 34cm, uma queda de quase 50 cm em relação ao registrado no mês anterior.
O fogo já ameaça algumas regiões do Estado. Conforme o Painel de Monitoramento da Ocorrência de Focos de Fogo do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe), o mês de outubro fechou com registro de 453 focos ativos em Roraima. Novembro começou com uma ocorrência significativa no domingo, dia 1º, na Comunidade Indígena Guariba, no Município do Amajari, Norte do Estado. Nesse região, queimadas vêm sendo registradas desde as primeiras semanas de outubro nas áreas de lavrado de comunidades indígenas ao longo da RR-203.
Diante dos fatos, significa que chegamos à janela crítica em que a forte estiagem começou a propiciar incêndios e queimadas descontroladas. O Inpa já vinha alertando que a combinação de estiagem e aumento do fogo altera a distribuição habitual das queimadas em Roraima. Em anos climáticos normais, as chamas se concentram no lavrado do Nordeste do Estado e progridem em direção ao sul ao longo das rodovias BR-432, BR-174 e BR-210.
Porém, no contexto de El Niño, passa a ocorrer uma concentração maior de incêndios na fronteira leste da Terra Indígena Yanomami, na área entre a Perimetral Norte, Vila Apiaú, Vila Nova e o Rio Mucajaí. Essa é a grande preocupação, pois além do impacto ambiental, o Inpa chama atenção para perdas na produção agropecuária, afetando comunidades rurais que dependem da agricultura de subsistência e do lavrado, a exemplo da própria Comunidade Guariba, onde há um projeto de criação de gado.
Conforme análise do Inpa, se o fogo sair do controle, poderá ocorrer um cenário já visto no passado de fortes estiagens, quando ocorre uma intensa poluição atmosférica causada pela fumaça dos incêndios, o que provoca sérios riscos não só para a saúde das populações tradicionais mais fragilidades, como o povo Yanomami, mas também para a população mais vulnerável nas cidades, como crianças, idosos e pessoas com comorbidades, além da população geral atingida pelas densas cortinas de fumaça.
O alerta emitido pelo Inpa e ISA é o mesmo para as projeções de seca e maior probabilidade de incêndios: medidas de prevenção, vigilância e controle reforçadas, incluindo monitoramento remoto e criação de frentes de contenção quando necessário. Também são necessárias campanhas de alerta à população sobre riscos à saúde e atenção especial às comunidades indígenas, além de pontos turísticos, a exemplo da Serra do Tepequém, que recebem os impactos da fumaça deslocada de áreas externas aos seus territórios.
*Colunista
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