
As palavras “patriarcado”, “machismo” e “feminismo” estão na lista das mais ironizadas e atacadas nas redes sociais desde que a política do extremismo de direita se instalou no país. E a cada caso de feminicídio, os que atacam (entre homens e mulheres) são os mesmos que transformam mulheres vítimas de crimes brutais em culpadas, acusadas sorrateiramente de terem provocado a situação que as levaram à morte ou a violências praticadas por homens.
O feminicídio da administradora Telma de Mello Faria, na fatídica manhã de quarta-feira, não fugiu a essa regra. Logo apareceu um elemento compartilhando um áudio insinuando, de forma leviana e criminosa, que Telma teria provocado a própria morte ao pedir medida protetiva para supostamente ficar com a casa que seria do seu ex-companheiro, o assassino que se matou em seguida. Obviamente que se tratou de uma mentira pregada com esse propósito machista de transformar vítimas em culpadas pela própria morte.
Aqui está um dos grandes desafios no combate a todos os tipos de violência contra a mulher, pois são séculos de uma cultura machista mantida por um patriarcado que determina que o homem tem posse sobre a mulher. E isso ganhou força quando a política extremista que se apoderou do Brasil esculachava mulheres em público, em entrevistas e nas redes sociais, comportamento reforçado pela religião que prega que a mulher realmente é uma propriedade privada do homem.
Mas isso não é de agora. Vem de muito longe. A História está aí para ser consultada. Até 1962, mulher casada só podia trabalhar fora de casa se o marido permitisse. A autorização poderia ser revogada a qualquer momento, o que era protegido por lei, conforme o Código Civil de 1916, que era bem explícito ao definir que mulheres casadas eram consideradas “incapazes”.
Obviamente que mulher não podia votar naquela época, direito este concedido somente a partir de 1932, quando um novo Código Eleitoral foi promulgado. As casadas ainda precisavam de autorização do marido para votar, o que foi derrubada em 1934. Não apenas isso. O Código Civil de 1916 também impedia mulheres casadas de abrir conta no banco, de ter estabelecimento comercial ou mesmo viajar sem a autorização dos maridos.
Com a promulgação do Estatuto das Mulheres Casadas, em 1962, os direitos avançaram com o fim das proibições reguladas em lei. E foi somente na Constituição de 1988, ou seja, há 38 anos, que ficou expressa a igualdade de direitos e deveres entre mulheres e homens. Foi logo ali, mediante uma Constituição que até hoje é atacada por extremistas de direita exatamente por reconhecer direitos de minorias, a exemplo das populações indígenas.
É dentro desse contexto que mais esse feminicídio em Boa Vista precisa ser refletido. Assim como outros que ocorreram, para logo serem esquecidos, a execução covarde e brutal de Telma provocou indignação pública e obrigou as autoridades a saírem do silêncio para novamente se discutir a realidade em que as mulheres são vítimas recorrentes de maridos, namorados e ex-companheiros, em que os elementos são os mesmos: ódio da mulher por não aceitar a separação e por ela estar seguindo sua vida da forma que lhe conviesse.
A consequência de tudo isso pode ser traduzida em números, os quais mostram que Roraima é um Estado perigoso para as mulheres. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 já mostrava que Roraima era um dos estados que já possuía taxas elevadas de crimes contra as mulheres (homicídio, estupro, violência psicológica e perseguição), todos acima da média nacional, com alarmantes números que seguem chamando a atenção do país.
Enquanto “patriarcado” e “machismo” se tornam termos achincalhados na atualidade, homens que se acham proprietários das mulheres matam de forma fria e calculista. Uns arrastam as mulheres de dentro do carro para matarem a tiros encurralada em um muro, como foi o caso de Telma de Mello. Outros agem como se estivessem matando um animal de seu curral, imobilizando com o joelho no pescoço, como foi o caso de Brenda Samara Lopes de Castro, de 20 anos, assassinada a facadas durante uma emboscada pelo ex-companheiro na saída de uma pousada no bairro Tancredo Neves, na noite do dia 25 de maio de 2025.
Os fatos estão aí e a pergunta fica: vamos esquecer mais esse caso quando o assunto não for mais de interesse da mídia?
*Por Jessé Souza
jesseroraima@hotmail.com
