Mais um feminicídio em Roraima e a cobrança de ações concretas às autoridades

Influenciadora divulgou vídeos do feminicídio dessa quarta-feira e do seu caso que repercutiu em 2022

O assassinato da administradora Telma de Mello Faria, 36, na manhã dessa quarta-feira, 16, no momento que ela chegava para trabalhar numa clínica no bairro Mecejana, expõe a grave questão do feminicídio não só em Roraima. Assim como em outros casos semelhantes, o assassino Diego de Sousa, 32, não aceitava a separação e executou impiedosamente a ex-companheira com cinco tiros à queima-roupa. Depois de fugir no carro da vítima, ele tirou a própria vida.

O caso perturbador mostra que a solução para o feminicídio não partirá de drones, botão de pânico e medidas protetivas que funcionam somente no papel. Telma já havia sofrido violências física e psicológica, além de ameaça de morte, por isso havia pedido medida protetiva de urgência, que não adiantou, revelando a necessidade do real fortalecimento da rede de proteção, muito além de campanhas de conscientização para ampliar o acesso à informação e aos canais de denúncia.

Esse caso de feminicídio ocorre em um momento decisivo da campanha eleitoral, obrigando que mulheres candidatas parassem para se posicionar, pedindo medidas das autoridades e se comprometendo a mudar essa realidade em que Roraima, o Estado mais bolsonarista do país, segue registrando feminicídios e lidera o ranking nacional de homicídios de mulheres, conforme o Atlas da Violência 2026.

O desafio é enorme e complexo, levando em consideração que o Estado de Roraima tem três mulheres no comando da Segurança Pública. Enquanto a Polícia Militar e a Polícia Civil atuam nas ações de prevenção e repressão, a Secretaria de Segurança Pública tem direcionado esforços para ações por meio do Governo Itinerante e apoio de deputados aliados. Mas isso não tem sido suficiente.    

O assassinato de Telma de Mello ocorre também em um momento em que a Justiça tem dado resposta ao condenar autores de feminicídios em casos de grande repercussão. Um deles o ocorrido no Município de Bonfim, em que o Tribunal de Juri, no dia 03 passado, condenou a 25 anos de prisão o assassino Edilson Araújo Veras, que não aceitava a separação e decidiu matar a ex-companheira France Araújo Abreu, executada com dois tiros na calçada de casa, onde a vítima estava sentada junto na companhia da mãe, no dia 8 de janeiro de 2024.

O Tribunal do Júri também condenou, no dia 26 de agosto, o assassino Kaio Vinicius Lopes da Silva Ribeiro a 30 anos de prisão pelo crime de feminicídio contra a ex-companheira Brenda Samara Lopes de Castro, de 20 anos. Ela foi morta a facadas durante uma emboscada pelo ex-companheiro na saída de uma pousada no bairro Tancredo Neves, em Boa Vista, na noite do dia 25 de maio de 2025, um crime brutal que revoltou a opinião pública à época.

Não pode ser esquecido que Boa Vista teve a 1ª condenação de um réu pelo novo crime de feminicídio, no dia 15 abril passado, quando o Tribunal do Júri condenou Adriano Batista Alves a 31 anos de prisão pelos crimes de feminicídio tentado, ameaça, cárcere privado e tortura, praticados no dia 26 de agosto de 2025 contra a então companheira, no bairro Senador Hélio Campos.

A vigência da nova Lei 14.994/2024 agravou a pena dos casos de feminicídio no país, em que o feminicídio passou a ser crime autônomo e teve sua pena aumentada de 12 a 30 anos para de 20 a 40 anos de reclusão. Hoje, junto ao vicaricídio, é o crime com a pena privativa de liberdade mais alta no sistema penal brasileiro. O condenado por esse tipo de crime só terá direito à progressão de regime após cumprimento de no mínimo 55% da pena. Mas nem isso tem evitado os crimes contra as mulheres.

Na comoção popular do feminicídio de Telma, a fala mais forte partiu da influenciadora e especialista em saúde íntima Carol Queiroz, que em 2022 foi vítima de uma tentativa de feminicídio cometido pelo então marido, um neurocirurgião, no portão de casa em área nobre da cidade. Ao compartilhar o vídeo em que ela foi vítima e o vídeo do feminicídio de Telma, Carol clamou por respostas das autoridades sobre o papel da rede de proteção às mulheres e cobrou da sociedade o comportamento de muitos que, em vez de se indignarem com os crimes, tentam julgar e culpar a vítima na tentativa de justificar e legitimar a ação dos agressores e dos criminosos.

*Por Jessé Souza

jesseroraima@hotmail.com

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