
O ano era 2011 quando um cenário muito semelhante ocorreu durante um inverno rigoroso em que todo o Estado de Roraima ficou debaixo d’água, do mais longínquo município, o Uiramutã, no extremo Norte, passando por Boa Vista, até Caracaraí, que também teve a parte mais baixa da cidade tomada pela cheia do Rio Branco. Pouca coisa mudou de lá para cá, 15 anos depois, especialmente nos municípios do interior, com as mesmas tragédias humanas e prejuízos diante da força da natureza.
No interior de Roraima, nessa uma década e meia, o tempo parece ter congelado em se tratando de políticas públicas para atacar problemas como atoleiros, pontes de madeira, trechos de rodovias invadidos por igarapés, comunidades alagadas pelo avanço das águas e uma série de outros problemas advindos da rigorosidade das chuvas. Centenas de crianças estão sem estudar porque o transporte escolar não consegue mais transitar pelas estradas devido a atoleiros ou pontes destruídas.

Na Capital, uma mudança efetiva e de impacto ocorreu em 2020, quando foi inaugurado o Mirante do Parque Rio Branco, que é conectado à Orla Taumanan, após ter sido concretizada a segunda tentativa de desapropriação da Área de Interesse Social Caetano Filho, que era conhecido como Beiral e tinha status de um bairro no Centro Histórico de Boa Vista, que alagava anualmente a cada inverno por ficar às margens do Rio Branco.
Houve várias tentativas de remoção de moradores e requalificação urbana, projetos estes que nunca deram certo, apesar dos anuais alagamentos. Uma delas foi feita pelo então prefeito Ottomar Pinto, que indenizou os moradores e os removeu para o bairro Cidade Satélite, no final da década de 1990, onde as famílias ganharam unidades habitacionais. No entanto, muitas delas venderam as casas que receberam e acabaram voltando para o Beiral.
Hoje, o Mirante tornou-se um cartão-postal e poucos se lembram que ali havia não apenas um drama humano a cada inverno e um problema social crônicos que vinha desde a ocupação tradicional e histórica, que remonta a década de 1940, durante a corrida pelo diamante na Serra do Tepequém, mas também uma área que foi sequestrada pelo tráfico de droga, problema que o poder público nunca conseguia resolver, o qual gerava violência, crimes e mais dramas humano e social provocados pelo vício.
Fora isso, nada se viu de concreto, por parte das autoridades, para resolver as ocupações urbanas irregulares ao longo das margens do Rio Branco e seus afluentes, que incluem as praias do Cauamé, Polar, Curupira e Caçari, no entorno da cidade. Até no bairro nobre Paraviana as ocupações se estabeleceram no setor onde alaga. Da mesma forma que ocorre na marginalizada Vila Vintém, ou Vila dos Oleiros, na entrada do Município do Cantá, apesar das seguidas tentativas.
Evidente que, desses tempos para cá, na Capital, muitas obras de drenagem ocorreram, com igarapés canalizados, esgotos pluviais, microdrenagem, aterros, urbanização etc. Mas os políticos e suas concessões politiqueiras que permitem legalizar ocupações são responsáveis por essas áreas urbanas que alagam às margens dos rios e lagos urbanos nos bairros, onde as imagens dos dramas de moradores são registradas.
No entanto, em relação a políticas públicas para solucionar problemas, não foi só o Mirante do Parque Rio Branco que se tornou um símbolo de vontade política para resolver um problema. Há um exemplo clássico, o primeiro deles: a construção do Viaduto Pery Cardoso Lago, no trecho urbano da Avenida Venezuela, no cruzamento com a Avenida Glaycon de Paiva, inaugurado em dezembro de 2000 pelo então prefeito Ottomar Pinto.
Naquela época, no fim da década de 1990, havia uma crítica generalizada de que a Prefeitura estaria desperdiçando recursos públicos ao construir um viaduto onde sequer havia tráfego intenso, apesar dos seguidos acidentes de trânsito com mortes naquele local. Atualmente, o Viaduto Pery Lago é parte essencial da mobilidade urbana da cidade, garantindo não apenas fluidez no trânsito, mas salvando vidas.
É desta forma que os políticos precisam atuar, olhando sempre para o futuro a fim de dar soluções definitivas para os problemas, incluindo nas cidades do interior. Os dramas do inverno roraimense precisam ser encarados assim, com ações firmes no presente para evitar tragédias futuras. No entanto, quando o inverno acaba, os políticos tratam como se nada tivesse acontecido. E a amnésia também atinge a população…
*Por Jessé Souza
