
Está na política o cerne dos grandes problemas que afetam o Estado. Não há dúvidas sobre essa questão. Basta pegar dois exemplos bem explícitos do momento: a questão do sofrimento da população com os reflexos do inverno rigoroso e a epidemia que se tornou a violência contra a mulher em Roraima, assim como em todo o país.
Com relação às fortes chuvas, em que nove municípios estão em situação de emergência decretada pelas prefeituras, com quase 50 mil pessoas afetadas principalmente no interior, é preciso lembrar que as últimas cassações de governador incluem recursos no valor de R$70 milhões repassados a 12 prefeitos aliados sob justificativa de situação de emergência quando sequer havia ocorrido um inverno rigoroso.
Enquanto estradas, bueiros e pontes de madeiras continuam sendo arrastados pelas enxurradas, no interior do Estado, desde o tempo de Território Federal, até o presente momento nunca foi comprovado onde esses R$70 milhões foram aplicados, revelando como a política contribui decisivamente para que os estragos provocados pela força da natureza nunca sejam tratados como política de governo.
Sem que haja um estudo antecipado, apontando todos os locais críticos passíveis de se tornarem tragédias ou transtornos no inverno e no verão, seguido de ações preventivas planejadas antecipadamente, a população vai sendo penalizada, com forças-tarefas criadas apenas quando a situação já saiu do controle. O que estamos vendo, hoje, no inverno roraimense, é consequência dessa realidade.
Em relação à violência contra a mulher, tendo Roraima como campeão no país, ocupando o topo do ranking de violência há vários anos com taxas alarmantes de homicídios e feminicídio, o cenário tem séria culpa na política praticada também de forma histórica, inclusive com políticos e outras autoridades envolvidas em violência doméstica passando incólume pelo crivo da sociedade. Temos até ex-deputado e ex-vice-governador acusado de estupro de criança nunca punido.
O problema começa dentro da estrutura governamental, onde a Polícia Civil nunca foi estruturada para tratar os casos de violência doméstica, estupros e feminicídio como deveria, com casos sendo engavetados por falta de condições para investigar, seja pelo número reduzido da equipe ou de uma estrutura arcaica. Isso sem contar com as prevaricações e omissões, a exemplo de um delegado de Rorainópolis condenado a 10 anos de prisão por deixar de investigar 11 casos graves de violência doméstica e crimes sexuais contra crianças e adolescentes.
Já tivemos casos de secretários e policiais acusados de violência domésticas nomeados para setores estratégicos do governo, o que significa uma política que trata a violência contra a mulher com desdém, como se não importasse na hora de fazer uma nomeação. Roraima tem até desembargador acusado de supostamente estuprar uma servidora durante uma confraternização.
E assim os grandes problemas nunca são enfrentados como deveriam por falta de vontade política ou desprezo mesmo, quando a política é feita para manter a estrutura como está, com os grandes problemas sendo ignorados ou sendo causados pelos próprios políticos, que desviam recursos que deveriam ser usados para combater as consequências de um inverno rigoroso ou mesmo para enfrentar a violência contra a mulher. São apenas dois exemplos e que podem ser estendidos para outras questões.
*Por Jessé Souza
