Depois da extrapolação do primeiro-damismo, agora surgem as consequências  

Simone Denarium foi indicada pela Assembleia Legislativa ao cargo vitalício de conselheiro do TCE-RR (Foto: Instagram)

O primeiro-damismo sempre foi um projeto de poder colocado em prática por todos os governantes que comandaram Roraima desde o tempo de Território Federal. Toda vez que um governador assumia (seja nomeado por Brasília, no tempo de Território, seja eleito pelo voto direto), a esposa se tornava uma peça-chave para comandar os programas de ações sociais, conforme a tradição da política brasileira, cujos programas nada mais eram do que ações assistencialistas em sua maioria.

As primeiras-damas sempre se encheram de poder ao conduzir a política assistencialista do governo de seus maridos e do seu grupo político, que visa sempre o voto lá na frente. Dependendo do carisma e de como os trabalhos eram executados, as primeiras-damas naturalmente se tornavam fortes pré-candidatas a um cargo futuro, seja para deputada estadual ou federal, senadora e até para o Governo do Estado.

Mais recentemente, com o desmantelo dos grupos políticos anteriores, o governador Antonio Denarium vislumbrou a possibilidade de extrapolar o primeiro-damismo. E assim conseguiu nomear a primeira-dama Simone Denarium como conselheira do Tribunal de Contas do Estado de Roraima (TCE-RR), cuja disputa tornou-se a maior queda de braço da política roraimense jamais vista, com desdobramentos impublicáveis e cicatrizes ainda sendo saradas.

O caso de Simone Denarium tem uma característica peculiar, pois a esposa do governador nunca quis assumir o papel de protagonista do primeiro-damismo, como ocorre no Brasil desde 1942, que é cuidar da política de assistência social da população mais pobre, a partir da qual costuma-se fazer uma escada própria na política partidária, conforme foi relatado acima a respeito dos governos anteriores desde o tempo de Território.

Ao ficar apenas um mês à frente da Secretaria Estadual do Trabalho e Bem-Estar Social (Setrabes), Simone emplacou a irmã no comando daquela pasta, optando por um cargo não remunerado na Casa Civil, onde ela tinha poderes amplos, com sala exclusiva, assessores e tudo. Ao ser cogitada uma ilegalidade nessa atribuição, foi criada uma pasta exclusiva para ela, a Secretaria Estadual Extraordinária de Desenvolvimento Humano e Social (SEEDHS).

E foi assim que Simone Denarium chegou ao TCE-RR, negando o primeiro-damismo, cercada de polêmicas, acossada por uma briga titânica intragrupos pela indicação que era da Assembleia Legislativa e de ações judiciais questionando a nomeação como conselheira em uma vaga que pertencia à Assembleia Legislativa. O que se observa é que não se tratou de “furar a bolha do primeiro-damismo” e dar um novo protagonismo ao papel da mulher na política, para não ficar à sombra do marido e renegar um papel subalterno.

Tratou-se de um projeto de poder atropelando que entrou na frente para tentar impedir os planos de um cargo vitalício. E, agora, surgem as consequências de tal nomeação polêmica, em que a principal ação da conselheira que veio a público é julgar-se suspeita de relatar as contas do governo do marido e dos secretários estaduais obviamente ligados ao governador.

Ela só se julga apta a relatar as contas de secretários de governos anteriores ao do marido. Se for esse critério, também poderá se julgar suspeita de relatar as contas dos aliados políticos do governador, que no período de campanha eleitoral para a reeleição, no ano passado, abriu os cofres públicos para liberar verbas para 12 prefeitos do interior do Estado, aliados governistas na campanha de reeleição.

A política tem disso. O caso vai além da extrapolação do primeiro-damismo. Em Brasília, algo semelhante ocorreu, em um projeto levado a cabo por um aliado do governador Denarium. O senador Mecias de Jesus conseguiu emplacar o filho deputado federal como conselheiro do Tribunal de Contas da União (TCU). Mas essa é outra história, cuja citação aqui serviu apenas como alegoria para mostrar que os projetos de poder estão acima de tudo e de todos – isso para lembrar as palavras de um lema bastante usado em outro projeto de poder.

Por Jessé Souza (jesseroraima@hotmail.com)

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