
A opinião pública acompanhou com certa atenção o julgamento de um empresário que matou a tiro o chefe de segurança de um local de festa que funciona em flutuante às margens do Rio Branco, em Boa Vista. A condenação do empresário a 17 anos de prisão foi recebida como um ato de justiça sendo feita em um Estado onde casos de assassinatos são banalizados e muitos dos acusados seguindo impunes.
De fato, a condenação em júri popular traz a importante mensagem de que o crime não compensa e que os criminosos precisam ser punidos para o bem de nossa sociedade. No entanto, a reflexão sobre impunidade precisa estar em primeiro plano, pois o que se percebe de uma forma geral é que a Justiça não tem alcançado peças importantes envolvidas em crimes de grande repercussão nos últimos anos.
Dois casos ocorridos em 2024 são simbólicos para mostrar pesos e medidas quando o assunto é alcançar personagens importantes envolvidas em crimes brutais. E o dado importante é que esses dois crimes de execução sumária ocorreram por disputa de terra em um Estado onde a questão fundiária é marcada por seguidas e sérias denúncias de irregularidades, com indícios de um grande esquema que nunca é desvendado.
Um desses caso foi o assassinato de Toinho da Aderr, na época candidato à Prefeitura de Amajari, que foi baleado durante uma tocaia montada na casa da vítima, na noite do dia 24 de setembro de 2024, mas morreu no hospital em seguida. A Polícia Civil apontou o empresário e ex-deputado federal Raul Lima como o mandante do assassinato, inclusive com dois funcionários deles presos como autores do crime.
O assassinato segue para completar dois anos sem que o acusado de ser mandante tenha sido preso, sequer preventivamente durante o desenrolar do processo, colocando esse caso nessa lista de impunidade onde quem tem poder político e dinheiro recebe outro tratamento por parte da Justiça. Hoje não se fala mais nesse episódio, caindo no esquecimento.
O segundo caso que expõe a impunidade dos grandes é do assassinato do casal de agricultores Flávia Guilarducci e Jânio Bonfim, crime de execução sumária ocorrida em 23 de abril de 2024 na Fazenda 3A, propriedade esta que onde o casal detinha a posse há 25 anos, mas era questionada pelo empresário Caio Porto, autor dos tiros e que segue foragido desde lá há quase dois anos. A influência na política era tanta que ele estava acompanhado de um capitão da Polícia Militar, Helton John Silva de Souza, que à época era nada menos que o chefe de segurança do governador.
Além da fuga do empresário, que tinha acesso a gabinetes palacianos, os detalhes envolvendo o capitão são sórdidos. Os autos do processo indicam que ele ficou com a arma utilizada no crime. Ao chegar em casa, escondeu a arma do crime no forro, disse para a esposa que havia acontecido “algo grave” que iria se resolver, tomou banho e, após uma crise de choro, fez uma oração (porque é cristão evangélico) e foi jogar futevôlei com os amigos na movimentada praça do Complexo Ayrton Senna.
Esse caso é muito representativo, pois ele se conecta a outro caso distinto e não menos importante. O capitão Helton chegou a afirmar em seu depoimento que ligou para o coronel Miramilton Goiano, que era o comandante da PM. Por isso, ele chegou a ser investigado pela Polícia Civil por suspeita de interferir no assassinato do casal de agricultores. As conexões não param por aí.
Depois desse episódio, o então comandante Miramilton passou a ser investigado pela Polícia Federal como sendo o líder de um grupo que vendia e armas e munições ilegalmente, inclusive para traficantes e garimpeiros na Terra Indígena Yanomami. Uma operação foi realizada em 22 de outubro de 2024 pela PF, cujos alvos eram, além do coronel, dois filhos deles policiais penais e o deputado estadual Rarison Barbosa.
Para se ter uma noção do que ocorria naquela mesma época, aproximadamente 100 policiais militares passaram a ser investigados pelo Ministério Público por crimes como fazer parte de milícia, trabalhar para empresários de garimpo, roubar garimpeiros, torturar, sequestrar, traficar drogas e homicídios. E a maioria desses investigados segue na impunidade até o momento.
Como se isso não bastasse, em fevereiro passado, a filha do capitão Helton John, Amanda Kathryn Monteiro de Souza, de 19 anos, se envolveu em um acidente que matou a técnica em enfermagem Patrícia Melo da Silva, de 53, na Capital. As investigações apontam que ela não foi submetida a teste do bafômetro e liberada do local do acidente após ela dizer aos PMs que atendiam à ocorrência que era “filha de capitão da polícia”.
Aqui está o cenário que não pode ser esquecido quando se fala em fazer justiça em Roraima. É necessário que a sociedade não baixe a guarda e siga cobrando que a impunidade seja combatida em todas as frentes e esferas. Até aqui, a impunidade também reina em crimes de trânsito e crimes cometidos contra mulheres, incentivando esse cenário de desalento que toma conta do país.
*Por Jessé Souza
